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Aquela “máquina”

 



 

 



 

Têm sido imensos os alertas lançados acerca dos hipotéticos perigos que a Inteligência Artificial (IA) poderá trazer à humanidade. Porém, não vale a pena sofrer-se por antecedência, uma vez que a ciência não para e as descobertas idem aspas. Por conseguinte, elas irão continuar a trazer à luz do dia novas máquinas e robótica sofisticada. E se a atual apreensão é por receio de que elas poderão vir a mandar e a controlar a humanidade isso já acontece e, certamente, irá prosseguir. Pergunto: apesar dos riscos que lhe estão associados haverá hoje alguém, habituado a utilizar as novas tecnologias, como a Internet, Facebook, Youtube, Instagram ou, até mesmo as caixas multibanco, que delas abdique? 

Estou em crer que nem o Santo Padre, Leão XIV – em cuja Encíclica “Magnífica Humanidade” aconselha (e bem) não só a desarmar a IA, como a usá-la com muita prudência por forma a acautelar a vida e a ética humanas – conseguirá, porventura, desconectar-se de tais inventos. Sim porque, afinal, todo o mundo recorre às novas tecnologias para quase tudo. Sendo elas, hoje, quem mais ordena. E não é de agora, pois quando os Bancos instalaram o sistema Multibanco, nessa altura, um saudoso pároco da Paróquia onde eu morava – na homilia da Missa dominical – teve com os fiéis o desabafo seguinte: – “estamos no fim do mundo. Aquela “máquina” do Montepio já fala. «Deve dirigir-se ao balcão». E não é que lhe obedeci?!”

Passadas algumas décadas nem o vaticínio de Apocalipse, a que aludiu reverendo, se cumpriu nem a evolução de tal artefacto parou por ali. Isto, porque ele vai sendo cada vez mais sofisticado e pronto a substituir o ser humano. Quem é que da minha idade não se recorda, dos muitos empregos que, entretanto, foram desparecendo? Eu cá lembro-me de alguns, de entre os quais os de telefonista, portageiro, lavador de carros, etc. Sendo caso para se dizer que as profissões são como as pessoas: morrem umas, nascem outras. E porquê: porque a maquinaria não faz gazeta; não têm horário de trabalho; não faz greve; não pede aumento salarial, nem tira férias. 

É sempre assim, a invenção aparece e a rotina vem a seguir. Hoje já pouca gente fala sobre os robots que suprimiram operários nos mais variados trabalhos não só em Portugal, como no mundo. Ainda aqui há algumas décadas soube de um empresário que adquirira uma “máquina”, a fim de mandar 12 trabalhadores para o desemprego. Contudo, não vi, nem ouvi, um único protesto que fosse contra tal aquisição. E sabem por que razão ninguém se insurge contra a tecnologia moderna? Porque quase toda a gente a usa para seu benefício e comodidade nas lides domésticas e não só. O mesmo se está a passar com a IA, que começa a ser adotada pelos humanos nas tarefas da mais variada ordem. Depois, tudo depende da forma como e para quê a utilizar, certos de que tanto será para o bem como para o mal. 

Quem não se lembra do aparecimento dos primeiros drones? Ao princípio lúdicos e engraçados. Capazes de obterem fotos do alto, nunca vistas. E agora? Compassivos vemo-los, através da TV, a atuar como poderosas armas mortíferas e destruidoras onde a guerra se instalou. E os satélites, que tanto servem para nos ligar ao mundo, como para espionagem, etc.? Até, neste capítulo, os espiões humanos, tão em voga durante a ‘Guerra Fria’, ficaram sem emprego, graças a novos elementos de carácter tecnológico.

Veja-se o urânio, cuja utilização serve para produzir energia elétrica. O homem conseguiu não só enriquecê-lo, como criar com ele armamento perigoso. E apesar de se saber do perigo que as Centrais Nucleares representam, nem por isso quem beneficia da eletricidade deixa de a consumir. 

Posto isto, devo dizer que sempre que ocorram desmoronamentos de prédios vantajoso seria que, em vez dos irracionais caninos, as equipas de socorro passassem a usar maquinaria de topo dotada de IA – criada, produzida e controlada pelos racionais seres humanos –, a fim de detetar e salvar pessoas soterradas nos escombros.

Narciso Mendes

Narciso Mendes

13 julho 2026