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Um nome grande, mas esquecido

 

Nunca tinha ouvido falar do Padre Luís de Sousa Rodrigues, até que, no passado dia 6, ouvi falar dele pela primeira vez. Apercebi-me, nas redes sociais digitais, de que se assinalava, nesse dia, os 120 anos do seu nascimento. As notícias diziam que havia sido um dos mais importantes sacerdotes, compositores e pedagogos da música sacra portuguesa do século XX. Procurei informar-me e descobri que, apesar de se tratar de um nome grande, está votado ao esquecimento. Como tantos outros, na verdade!

O Padre Luís de Sousa Rodrigues nasceu em Rande, Felgueiras, a 6 de julho de 1906. Frequentou, primeiro, a escola da Longra e, depois, os Seminários do Porto, tendo sido ordenado sacerdote, em 1930.

Estudou música no Conservatório do Porto, onde se formou em harmonia, contraponto e fuga com Cláudio Carneyro (1895-1963). Aprofundou os seus conhecimentos de canto gregoriano nas abadias beneditinas de Solesmes e Saint-Wandrille, em França, vindo a ser professor desta disciplina no Seminário de Nossa Senhora da Conceição, no Porto.

Foi reitor da Igreja da Lapa, no Porto, durante mais de trinta anos, onde empreendeu uma verdadeira renovação da música litúrgica: promoveu, em 1950, a instalação do primeiro órgão de tubos desta Igreja e fundou, em 19581, o Coro de São Tarcísio2, que teve um papel importante na animação musical das celebrações.

Foi uma figura central na renovação da música sacra em Portugal, entre 1940 e 1960. A sua obra prima é seguramente a Missa Christus Manet, escrita em 1959, para coro a quatro vozes e órgão, revelando uma maturidade contrapontística e uma linguagem harmónica muito cuidada. É nesta obra que melhor se percebe a influência do canto gregoriano aliada a uma estética moderna.

Das suas outras obras, destacamos também a Missa Credo in unum Deum (1939), a Missa Regina Coeli (1943), Te Deum laudamus (1955), a Missa Litúrgica (1956) Hossana3 (1958) e ainda Avé Maria (1939)4. De referir também os muitos cânticos coligidos em Rosa Mística5 (1934) e Eucarísticos6 (1944).

Na música profana, o destaque vai para Meu Portugal, escrita para grande coro orfeónico. Aí mostra que não se limitava à música religiosa e que sabia integrar elementos da tradição coral portuguesa. De registar também que é da sua autoria a banda sonora do filme A Cidade e o Pintor, realizado por Manoel Oliveira.

A sua música combina uma sólida formação erudita com influências da música popular portuguesa, o que faz das suas composições acessíveis sem perder qualidade artística. Compôs numerosas obras religiosas para coro, órgão e orquestra, bem como cânticos destinados às assembleias litúrgicas e às crianças. Escreveu livros e artigos sobre música sacra, canto gregoriano e estética musical, sendo também crítico musical e musicólogo.

Além das músicas que compôs, publicou algumas obras literárias fundamentais, incluindo o Tratado de Canto Gregoriano e Polifonia Sagrada (1946), bem como biografias analíticas sobre os compositores Claude Debussy e Modest Mussorgsky.

A Igreja da Lapa prestou-lhe duas homenagens: um busto no adro da igreja, da autoria da escultora Irene Vilar; e um retrato a óleo, na sacristia. Além disso, foi distinguido, a título póstumo, como Oficial da Ordem de Santiago de Espada, em reconhecimento do seu contributo para a cultura e a música portuguesa.

A qualidade da sua música não é conhecida e não foi ainda reconhecida e, apesar de as suas composições terem sido já, por algumas vezes, executadas não estão ainda gravadas, o que dificulta a sua escuta. Não será tempo de a Igreja da Lapa e a Diocese do Porto prestarem tributo a um dos seus mais exímios servidores, no século XX, promovendo a gravação das suas obras? Pode não ser fácil, mas valeria muito a pena.


 


 

 

1Este órgão esteve em funcionamento até 1995, ano em foi inaugurado o atual Órgão, do organeiro alemão Georg Jann, um instrumento de grandes dimensões, construído especificamente para a igreja e considerado um dos mais importantes da Península Ibérica.

2Em 1997, este coro transferiu-se para a Igreja da Trindade, onde mantém a sua atividade litúrgica e coral.


 

3Coleção de música para a Semana Santa, ainda em latim. Continua a ser uma referência para quem estuda a música litúrgica portuguesa do século XX.

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5A sua primeira coletânea importante de cânticos marianos. É uma obra marcante porque introduz melodias acessíveis sem perder qualidade artística.

6Coleção de cânticos para a Comunhão que teve ampla difusão em Portugal. É um dos seus trabalhos de maior impacto pastoral.

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

13 julho 2026