am quase todos de branco, novos e mais velhos e até crianças. Era dia daquilo que hoje mudou moda e se designa agora de noite branca. A Litita, minha sobrinha e afilhada, ouviu então falar dela própria a uma criança que seguia também de branco: "olha mãe, aquela mulher vai de preto"! Foi um alerta para alguém que ia também para a mesma festa, talvez um pouco distraída, talvez preocupada em chegar a horas. Tinha-se comprometido, mas tinha adormecido, o sono andava atrasado desde há alguns dias atrás. Iniciara férias três dias antes e o tempo agora vazio, sem o trabalho de preparação das candidaturas aos fundos europeus que tinha em mãos, ocupara-a mais do que se não se tivesse ausentado. Aquela criança a quem sorriu, mas de quem não chegou a saber o nome, alertou-a para a necessidade e a importância do tempo e dos tempos e de que nem sempre se está preparado para as funções, quaisquer que elas sejam. A vida é feita de objectivos, nem sempre conseguidos. Não que a indumentária seja decisiva, mas esse pormenor pode fazer toda a diferença em algumas circunstâncias ou actos. Na festa branca referida, o que se vestia queria dizer muita coisa, de bem ou de mal. A exclamação da criança foi, na verdade, e com propriedade, um reparo pertinente e uma crítica oportuna.
O que de bom tem a democracia é a liberdade de pensamento e de opinião. Não fosse a observação livre e atempada da criança, a Litita teria chegado à reunião com os padrinhos e, de um modo geral, com os demais participantes da "white party", como se não soubesse para onde ia. Não basta dizer afirmativamente a um convite ou a um desafio sem a preparação necessária. É preciso apresentar-se convenientemente e dar sentido ao compromisso assumido.
Os governantes assumem frequentemente responsabilidades sem terem capacidade, outras vezes ignorando se o país tem possibilidade e outras ainda, conscientes e teimosamente, deixando o fato certo em casa e desfilando com outro desajustado tanto às circunstâncias como às necessidades. Vestir preto em vez de branco, quando a necessidade seria a última vestimenta, é como andar em contra-mão. Às vezes, fazendo-o até de propósito, como se a democracia não devesse ser respeitada. Outras, negligenciando ou não fazendo o que lhes compete.
Há dias, li num jornal que um tribunal tinha decidido dar razão a um senhorio cujo inquilino já não lhe pagava renda de casa há dois anos, alegadamente, por falta de recursos financeiros. Na sentença, a lei foi respeitada e bem, e quem decidiu cumpriu a sua missão, mas deve ter havido falha de outra ou outras instituições que deviam ter acompanhado a situação, com diligência e oportunidade, e não o fizeram. Infelizmente, nesta como noutras situações, há muitas senhoras e muitos senhores que andam desfasados da realidade, que não acompanham quem precisa, que não agem proactivamente, que não cumprem a sua folha de encargos.
A ministra da Saúde não se tem dado conta de que anda de preto quase o tempo todo enquanto os cidadãos sem médico de família, de branco, reclamam igualdade de tratamento. Quando culpa a imigração pelo aumento das pessoas sem um clínico atribuído para a ele recorrerem com regularidade, não se desprende das mesmas vestes. Culpar terceiros por algo que a própria não conseguiu fazer é insistir andar de preto quando uma multidão lhe diz, alto e bom som, que vai desajustada para a festa. E culpar a comunicação social por dar voz aos descontentes com a situação é não querer mesmo olhar para si e não ver o quão ridículo que isso é.
Montenegro também tem andado fora do tempo, distraído ou adormecido, ao achar que a escolha de alguns dos seus ajudantes no Governo foi a mais feliz, por achar que são, e continuam a ser, a fina flor para o sucesso das suas promessas eleitorais.