Vivemos numa época de profundas transformações. A inteligência artificial, a crise ecológica, a globalização, o aumento das desigualdades, a fragilização das democracias e a erosão do Direito Internacional são habitualmente apresentados como problemas distintos. Mas talvez não o sejam.
Talvez sejam apenas manifestações diferentes de uma mesma crise, mais profunda e mais ampla, de natureza antropológica e civilizacional.
Ao longo das últimas décadas, a humanidade alcançou um extraordinário progresso científico e tecnológico. Nunca, como agora, dispôs de tanto conhecimento, de tantos meios e de tanto poder. E, no entanto, nunca foi tão evidente a dificuldade em responder a uma pergunta fundamental: ao serviço de quê?
Conforme se vai constatando, a técnica avança mais depressa do que a reflexão ética. A economia globaliza-se mais rapidamente do que a solidariedade. O poder concentra-se mais facilmente do que a responsabilidade cívica e política. E os instrumentos multiplicam-se de forma mais intensa do que a consciência do seu fim.
É neste contexto que a Magnifica Humanitas assume um significado que ultrapassa largamente o âmbito religioso como, de resto, os domínios tecnológico, económico ou político. A sua mensagem central é humana.
A encíclica recorda-nos que as pessoas não podem ser reduzidas a meros consumidores, produtores, utilizadores ou simples dados estatísticos. A dignidade humana continua a ser o fundamento de toda a ordem justa e o critério último da política, da economia, do direito, da ciência e da governação.
Quando a pessoa deixa de ocupar esse lugar central, surgem inevitavelmente as patologias do nosso tempo, entre as quais sobressaem a tecnologia sem ética, a economia sem justiça, a globalização sem solidariedade e uma ordem internacional sem autoridade moral.
Por isso, a grande questão do século XXI não consiste em saber como regular a inteligência artificial, como travar a crise ecológica ou como reformar as instituições internacionais. Embora seja evidente que tudo isso é necessário e urgente, a magna questão, anterior a todas as outras, consiste em saber que ideia de ser humano orientará todas essas respostas. E isso porque, sem uma renovação da nossa compreensão da pessoa humana, nenhuma reforma será duradoura.
E é justamente aqui, nesta ideia essencial, que a tradição da Democracia Cristã pode reencontrar a sua vocação histórica e a sua inspiração mais profunda para a construção de uma sociedade baseada na dignidade da pessoa, no bem comum, na fraternidade e na responsabilidade.
A fidelidade aos seus princípios reclama hoje uma renovação do seu pensamento e da sua acção. Perante a mudança dos desafios, o problema fundamental permanece o mesmo: como organizar a vida colectiva de forma a colocar o poder, a economia e a técnica ao serviço da pessoa humana.
A Magnifica Humanitas não oferece um programa político. Oferece um critério ou uma medida que é algo mais importante.
Em vez de aumentar o poder da humanidade sobre o mundo, propõe o aumento da sua capacidade de colocar esse poder ao serviço da dignidade humana, da justiça e da paz, intuindo que a grande tarefa do nosso tempo passa pela reconstrução de um humanismo capaz de servir de fundamento comum à política, ao direito, à ciência e à governação global. E sempre no respeito da alteridade e diversidade dos povos e nações e dos valores universais, sem imposição de uniformidade cultural.
Verdadeiramente, o novo humanismo que a encíclica propõe pode ser a resposta mais profunda para a crise do nosso tempo.
A singeleza da tese convence. A grandeza do seu propósito inspira e mobiliza.