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Ó tempo, volta para trás…

Há quase três mil anos, o desporto suspendia conflitos. Hoje, limita-se a conviver com eles.

Um dos acontecimentos mais importantes da Antiguidade eram os Jogos Olímpicos (JO) que se realizaram pela primeira vez em 776 a. C. em Olímpia, na Grécia e onde os vencedores eram vistos como homens favorecidos pelos deuses. Hoje, para além das Olimpíadas, um dos acontecimentos mais importantes – que coincidentemente se inicia esta semana - é o Mundial de Futebol, organizado por três países e em que um deles, infelizmente, tem na liderança um “rei” que se sente um deus.

Na época dos primeiros JO, a Grécia era composta por um conjunto de cidades estado independentes que estavam frequentemente em guerra entre si. No entanto, e como seres minimamente civilizados, os Reis dos diferentes estados celebravam um acordo para suspender conflitos e garantir a segurança dos participantes que viajavam para os Jogos Olímpicos. Terminavam todas as guerras? Não, mas eram suspensas as que impossibilitassem a deslocação a Olímpia e era garantida a segurança de atletas, treinadores e de todos os que quisessem assistir aos Jogos - sem terem de pagar valores exorbitantes pelos bilhetes. Inicialmente, as tréguas duravam um mês – o tempo dos JO, – mas posteriormente esse período foi alargado para três meses, permitindo que as viagens de ida e volta fossem feitas em segurança, também por parte daqueles que se deslocavam de mais longe.

Atualmente, em vésperas de se iniciar o mundial de futebol, um dos países organizadores ameaça atacar um dos países participantes, impede a entrada no seu país de árbitros escolhidos pela F.I.F.A., e impossibilita adeptos de diferentes países de assistirem à competição. Por fim, o país com o qual se encontra em conflito, é obrigado a entrar e sair dos EUA no mesmo dia em que joga.

Mas, quem manda na competição? Supostamente é a F.I.F.A., entidade máxima do futebol mundial que tem o poder de: suspender federações, impedir seleções e clubes de competir internacionalmente e exigir o cumprimento dos seus estatutos. Só a título de exemplo: a Rússia está suspensa desde 2022 devido à invasão à Ucrânia e vários países já viram as suas seleções impedidas de competir devido a interferências governamentais consideradas incompatíveis com a autonomia desportiva. A República do Congo – um dos adversários de Portugal – esteve suspensa durante três meses em 2025 por ingerência governamental na federação nacional de futebol. Por fim, mais atual, a camisola do Haiti que exaltava o movimento que conseguiu a independência da França no século XIX, foi proibida a três dias do início da competição.

A pergunta que se impõe, é: porque não a mesma determinação quando é colocada em causa a própria universalidade da competição que organiza?

Os JO surgiram numa época em que os homens acreditavam nos Deuses. Mesmo assim, conseguiram interromper guerras para proteção de todos os que neles quisessem participar. Passado quase três mil anos, o futebol mundial não consegue defender os valores que diz promover e resigna-se a conviver com aquilo que na Grécia antiga perceberam dever ficar à porta da competição: guerras e restrição à circulação de árbitros, adeptos e seleções.


 


 

Carlos Mangas

Carlos Mangas

12 junho 2026