Nestes primeiros dias de Junho de 2026, o país foi informado que os banhistas das praias algarvias não podem abrir o guarda-sol onde querem. Embora se saiba que há negócios de “zonas concessionadas”, só um anormal aceita ouvir de que “a praia não é para todos, nem todos podem beneficiar da praia (com guarda-sol próprio) onde querem”. Esperemos que nenhum camarário diga que o mar também não pode ser de todos.
E porque esta polémica surgiu, pensei no mar português.
Sempre o mar foi paixão e heroicidade dos portugueses. Sempre soubemos amar o mar, vivendo também do mar. Nunca as duas primeiras repúblicas abdicaram do mar e até nas moedas do dinheiro português (escudo) estavam cunhadas as caravelas, das quais os “demo-cratas” do pós-Abril de 1974 se envergonharam.
Fomos heróis do mar, e com muita assiduidade se canta com força e garra o “Heróis do Mar”, um dos hinos mais bonitos do mundo, embora já tentassem substituir o poema, a nossa realidade como povo do mar e de nação mais velha da europa.
E o nosso mar era palco de grandes navios, bons barcos de pesca e tínhamos os melhores profissionais a apanhar o que consumíamos. Portugal estava ligado ao mar.
Através do mar faziam-se grandes transportes para África e para o estrangeiro. Com o vinte e cinco do quatro, tudo se alterou. Já não era preciso nem convinha marinhar para a África, principalmente para a Ex portuguesa, e tudo teria de ser feito para “desligar Portugal do passado”, isto é, das anteriores repúblicas: anárquica e rapace uma, e cega a outra.
Porque foi “vergonhoso e retrógrado” ter-se utilizado o mar contra os africanos (então) portugueses. Logo, era necessário travar a vida marítima portuguesa para dar satisfações aos Americanos e à Rússia de 1974.
Entenderam assim os revolucionários do Processo de Revolução em Curso (PREC), que devia ser substituída a política económica artesanal - sobretudo na zona agrícola - e “virarmo-nos para a economia actual, sofisticada, porque as políticas anteriores eram de aromas salazaristas.”
Nesta terceira república, ofertado o Império português por Leninistas e Marxistas e afinada a língua no esmeril dos que “amolavam tesouras e navalhas em prol do país” – Álvaro Cunhal na Rússia e Mário Soares em França – passamos a comer produtos agrícolas e carne do mar importados, pagos a ouro, atirando milhares de portugueses para o desemprego. Tais revolucionários, até acabaram com o programa da televisão “Mundo Rural”, apresentado pelo engenheiro Sousa Veloso, “porque caduco”.
Tinha a (segunda) república de Salazar em 1970, 150 navios e hoje parece que ainda existem oito. Pescávamos cerca de 680 mil toneladas de peixe por ano que abasteciam o país e se exportavam. Hoje, pescamos cerca de cem mil toneladas e, até o peixe pescado em águas doces, praticamente não existe.
A Espanha, que esfregou as mãos ao ver o abandono de Portugal pelo mar e tendo conhecido o acordo entre a União Europeia e Marrocos sobre a pesca marítima portuguesa, deram uma volta de tal forma à sua (deles) indústria pesqueira que, abastecendo-se o suficiente, exportam actualmente peixe para todo o mundo e, como não podia deixar de ser, compramos-lhes pescado e produtos agrícolas, sabendo que tudo isso nos custa (em 2026), cerca de 2 mil milhões de euros por ano.
Assim, não se sabendo ainda hoje o que fizeram ao dinheiro dos navios vendidos e porque ser revolucionário nesta terceira república era bem visto “pelos nossos amigos europeus”, sobretudo pelo “notre ami Miterrand” – disso se vangloriava Mário Soares - o ex-presidente da república Cavaco Silva, – “que nunca errou” – não teve problemas em ter abandonado o interesse pela agricultura e as pescas, enterrando fundo a Marinha Mercante e a Construção e Reparação Navais.
Assim, há que pagar a factura do abandono e da não exploração da terra e do mar, pela opção de auto-estradas que apenas servem os transportes de outros europeus que nos vendem produtos, e reconhecer que temos fortunas nas mãos de alguns que, através da Lei nº 34/87, de 16 de Julho, ninguém investiga e ninguém é condenado: na verdade, quanta mais vida rapace feita por essa gentalha assiduamente acusada, mais admirados parecem ser, porque a Justiça que os devia condenar, caminha ao ritmo dos caracóis ou espera que os ratos roam os processos por falta de peixe e de géneros agrícolas.
É de crer que o nosso mar, abandonado e “sentindo-se” inútil aos portugueses, deve “estar triste” com a não eficiência da Agricultura e das Pescas, mas sobretudo triste por ser mar gerido por incapazes, sem noção de servir e sem noção de estadistas e de patriotismo.
(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990).