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Sujeito celebrante da Eucaristia: a Assembleia (4)

Continuamos a apoiar-nos no livro «A Missa noutras palavras», de Louis-Marie Chauvet, na versão espanhola de 2025, capítulo 3.

Este assunto é talvez o mais revolucionário da reforma litúrgica, mas que precisa de ser entendido corretamente. Uma coisa é a Igreja universal do ponto de vista sociológico: soma das igrejas particulares; e outra, do ponto de vista teológico: a Igreja universal, a Igreja de Jesus Cristo, realiza-se plenamente em cada Igreja particular. Do ponto de vista sociológico, cada Igreja é uma parte da grande Igreja universal; do ponto de vista teológico, é uma porção dela. A diferença entre ‘porção’ e ‘parte’, pode entender-se melhor com um exemplo: numa refeição, do ponto de vista quantitativo, só como uma parte do queijo que me oferecem; do ponto de vista qualitativo, todo o queijo está na porção que tomo e como.

Quando uma paróquia, com o seu pároco, unido ao bispo e o bispo ao Papa, se reúne: «é a Igreja toda inteira – qualitativamente, como porção, e não quantitativamente, como parte – a que se reúne nesse lugar concreto: a Igreja una, santa, católica e apostólica. É a Igreja que vai celebrar o memorial da morte e ressurreição do Senhor. Todos celebram, e não apenas o sacerdote. Como afirma a Desiderio Desideravi, nº 36: «… é a Igreja, Corpo de Cristo, o sujeito celebrante, não só o sacerdote». E estas afirmações são o que há de mais tradicional durante séculos. Tudo se exprime com um «nós» e é também um ‘nós’ quem o executa. Isto não quer dizer que todos fazem materialmente tudo. Normalmente, é o sacerdote quem vemos atuar. Mas tudo se exprime com um ‘nós’. Os fiéis não se limitam a unir-se interiormente ao que o sacerdote faz. Atuam realmente através dele.

A liturgia é uma experiência viva. Não funciona à base de ideias: é uma ação no aqui e agora da celebração.

Há algo que nos pode surpreender: durante todo o primeiro milénio, a reserva eucarística, prevista para os enfermos e os moribundos, guardava-se na sacristia e não na igreja. Só a partir do século XII, e só no Ocidente, se instituiu a prática da adoração eucarística fora da missa. Então, o Santíssimo Sacramento começou a guardar-se na própria igreja. Mas a igreja, antes de ser o lugar da presença eucarística, é a casa do povo de Deus. Daí algumas das transformações nas nossas igrejas, não só com o altar voltado para o povo, mas, quanto possível, o povo à volta do altar, porque a eucaristia conduz-nos a Cristo conduzindo-nos até aos membros do seu Corpo. A Igreja é uma comunhão que promove e integra as diferenças.

O sacerdote preside para que todos celebrem. Não é ele que celebra a eucaristia em vez de todos, como tantas vezes se parece dar a entender. O sacerdote preside «em nome de Cristo», «in persona Christi», na versão latina. E não é adequado traduzir «na pessoa de Cristo». Por duas razões: a) na própria língua latina: «in persona alicuius» (em nome de alguém), opõe-se a «in persona própria» que se traduz: «em seu próprio nome» e não «na sua própria pessoa»; b) «Em nome de outro» tem um significado muito claro. Quando o primeiro ministro fala em nome do Presidente da República ou do Rei, onde há essa tradição, toda a gente entende que é o Presidente da República ou o Rei que fala através do seu ministro. Pelo batismo, diz São Cirilo de Jerusalém, «sois chamados, não de modo imerecido, ‘Cristos’. O sacerdote é o representante sacramental de Cristo a título particular, isto é, representa Cristo como «cabeça do Corpo», na bela imagem de São Paulo. É, portanto, o «sacramento» de Cristo quem preside à assembleia. «Sacramento», não apenas como sinal exterior, como o fumo, por exemplo, é sinal exterior do fogo, mas como signo portador de significado. Tal como o sorriso e o beijo significam e criam uma relação de amizade, de afeto ou de amor.

Sendo Cristo quem preside à Assembleia reunida, como o mostra a presença do sacerdote, então, todos os que são membros do seu Corpo são necessariamente atores «por Cristo, com Cristo e em Cristo». Reconhecer no sacerdote o «sacramento» de Cristo que preside não é, de modo nenhum, pedir-lhe que atue em lugar da assembleia. Pelo contrário, é situar a assembleia como o ator da celebração. É um só o que preside para que todos celebrem. Ou seja, todos são atores. Os fiéis não se limitam a unir-se interiormente ao que o sacerdote faz em lugar deles. Os fiéis também atuam: dão graças, pedem, oferecem e, inclusive, consagram. Não sem o sacerdote, claro. Mas o sacerdote não pode atuar «em nome de Cristo» sem que a Igreja reconheça que, de uma maneira ou outra, atua também «em nome da Igreja».

Carlos Vaz

Carlos Vaz

10 junho 2026