Num espaço de restauração de centro comercial, ouvi uma frase que ficou a ecoar: não levante o tabuleiro, tira empregos. Ensinaram-me que levantar o tabuleiro era gesto de boa educação, de respeito pelo espaço comum e por quem nele trabalha. Hoje, porém, pretende-se que o consumidor seja educado de outro modo: não como cliente, mas como colaborador voluntário sem remuneração, peça útil de uma engrenagem que lucra precisamente com a nossa educação ou civismo. Talvez se deva ponderar sobre o que, cada vez mais, se exige ao consumidor e que impacta, ou na vida deste, ou na dos trabalhadores, normalmente os menos qualificados, mas que têm de ganhar a vida. As grandes empresas, sobretudo de distribuição alimentar, e depois muitas outras, descobriram a fórmula: reduzir custos, simplificar estruturas, substituir pessoas por máquinas e, não raro, transferir para nós parte do trabalho. Diga-se, de forma legítima e compreensível do seu ponto de vista na busca da maximização dos lucros e minimização dos custos. No antigamente havia que apaparicar o cliente, dar-lhe uma estrutura diferenciada. Hoje transformarmo-nos em escravos. As caixas automáticas são exemplo mais evidente. O consumidor escolhe os produtos, transporta, dispõe, regista, confirma, paga e, se tudo correr bem, ainda agradece a rapidez do processo. A promessa inicial de eficiência, pensada para quem levava um ou dois artigos, tornou-se numa espécie de armadilha: já se aceitam carrinhos cheios, formam-se filas, multiplicam-se os erros e a rapidez foi-se. E não deixa de ser curioso que aquilo que nos é apresentado como modernização, acabe por ser uma rendição coletiva ao trabalho não pago. Não há desconto, nem bonificação, nem sequer uma gentileza simbólica. A mesma lógica regressa, agora com vestes ambientais, no sistema de depósito e devolução de embalagens. A causa parece justa. O problema não é a ideia, mas como ela é imposta. Diz-se ao cidadão que recebe dez cêntimos; na verdade, devolvem o que já fora seu. E para os recuperar terá de guardar, transportar com custo associado, procurar o local adequado, suportar a eventual recusa da máquina e aceitar, com paciência franciscana, que nem sempre o sistema reconhece o esforço que exige. Quem tem meios suporta melhor o incómodo. Quem tem menos, vê-se obrigado a adaptar a vida à logística da devolução. O rico pode pagar para poluir; o pobre tem de contar cêntimos, espaço, tempo e deslocações. Já se veem pessoas que, facilmente, aderiram à reciclagem que se ia aproximando do cidadão, e agora se questionam para quê? Portanto, “faça você mesmo” é o lema embrulhado em eficiência, sustentabilidade, inovação, responsabilidade. E que dizer quando vamos a um estabelecimento e nos cobram a taxa e não temos como guardar a embalagem? o que fazer nas férias, acumulamos onde? E nos aeroportos já não deitamos no lixo separado? E nos cafés que nos refletiram o valor, vamos andar na rua com latas ou garrafas vazias? E aquelas que a máquina devolve, vamos ter duplo trabalho? E as que as crianças amarfanham nas suas mãos, vamos andar tipo guarda para que tal não aconteça? Talvez se fomente uma espécie de arrumadores ou catadores nas redondezas, a olhar sequiosos as nossas garrafas, ou se fomente a venda de saquinhos próprios para guardar. Será interessante perceber o nível de adesão por contraponto à reciclagem via ecoponto. Compra, paga mais caro, separa, guarda, leva a eventualmente quilómetros porque não se tem à porta de casa, e pede-se que a máquina não decida não merecer a “volta”. Quem beneficia economicamente do sistema de quem não devolve, ou não pode devolver, ou lhe é negado devolver? Temos mesmo de trabalhar para os outros graciosamente? Até o Estado vai brindando o cidadão em muitos serviços públicos com o inevitável disparo de alguns funcionários da pérola: “podia fazer online”. Apetece perguntar a quem nos diz isso: o que está aqui a fazer à conta dos nossos impostos? Começa a irritar!
Consumidores escravos
António Lima Martins
9 junho 2026