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Por Entre Linhas e Ideias

Que país somos quando celebramos Portugal? Esta crónica dá à estampa precisamente no dia em que celebramos Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas. É, por isso, um bom momento para enaltecer o nosso país, comemorar a língua que Camões elevou à grandeza literária e reconhecer os portugueses que, dentro e fora de portas, continuam a levar Portugal mais longe. Somos um país geograficamente pequeno, mas Portugal soube e sabe ser grande. Grande na língua, na cultura, na capacidade de partir e regressar, na coragem de atravessar fronteiras e na forma como tantas comunidades portuguesas mantêm viva a ligação à terra, mesmo quando a vida acontece longe dela.

Caros leitores, Camões continua a ser o grande símbolo deste dia. Não apenas por ter cantado a grandeza de Portugal, mas por ter sabido mostrar que nenhuma grandeza existe sem inquietação. Em Os Lusíadas, o Adamastor não é só um monstro do mar, é a figura dos medos, dos limites e das forças que cada povo tem de enfrentar quando quer ir mais longe. Celebrar Portugal é também isto, reconhecer a coragem de atravessar o desconhecido sem esquecer que ser grande exige responsabilidade. E talvez seja isso que Portugal tenha agora de levar para o Mundial de futebol que se inicia já amanhã, coragem diante dos seus Adamastores e ambição serena para voltar a fazer história.

É aqui que a reflexão filosófica se torna necessária, porque celebrar um país não é apenas recordar o que ele foi, mas perguntar o que ainda pode ser. São Martinho de Dume, a partir de Braga, ajudou a formar uma consciência moral e cultural num tempo em que educar um povo era também ordenar a sua visão do mundo. Mais tarde, Pedro Hispano, o nosso Pedro Julião, que viria a ser o Papa João XXI, mostrou que Portugal também teve lugar no pensamento medieval europeu, sobretudo através dos seus Tractatus, conhecidos mais tarde como Summulae Logicales, uma obra central da lógica medieval.

Séculos depois, Antero de Quental olhou para Portugal com a exigência de quem ama sem se conformar. Em Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, procurou compreender o atraso do país e lembrar que o patriotismo não pode viver apenas de memória. Agostinho da Silva pensou um Portugal mais livre, mais criador e mais aberto ao mundo, fiel à ideia de que “o homem não nasceu para trabalhar, nasceu para criar”. Eduardo Lourenço, em O Labirinto da Saudade, ajudou-nos a perceber que Portugal vive muitas vezes preso à imagem que construiu de si mesmo, dividido entre a grandeza lembrada e a dificuldade de se pensar no presente. Talvez por isso faça sentido recordar uma das suas frases mais simples e mais fundas, “o encontro com os outros é o verdadeiro encontro connosco”. No fundo, estes pensadores lembram-nos que Portugal só se celebra verdadeiramente quando aceita pensar-se sem desistência. E, na esteira destes pensadores, creio que o Portugal de que precisamos hoje é um país que pense melhor, participe mais e prepare com seriedade o seu futuro.

Caros leitores, dentro de poucas horas voltaremos a ter os olhos postos no ecrã, a celebrar Portugal nos golos da seleção, no hino que se canta antes do jogo e na bandeira que volta a juntar-nos. Mais uma vez, este pequeno país terá a esperança de se tornar grande aos olhos do mundo, não pela dimensão do território, mas pela coragem, pelo talento, pela união e pela forma como souber representar aquilo que somos. Porque o hino e a bandeira não são apenas símbolos de ocasião, são sinais da dignidade e da honra de sermos portugueses. Que Portugal entre neste Mundial com ambição, respeito e memória, e que nos dê, uma vez mais, razões para acreditar.


 

- Afinal, que Portugal queremos nós ser quando o mundo inteiro estiver a olhar para nós?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

10 junho 2026