Nos nossos tempos, a sociedade em que vivemos apresenta certas doenças difíceis de curar e, com frequência, tratadas não como tal, mas como uma espécie de situação normal e, por isso, como uma manifestação da liberdade humana, que não pode contrariar-se.
Decerto que há situações e situações. Umas que são tão correntes e habituais, que não devem ser contrariadas. Outras em que se nota claramente a sua nocividade, pelo que devem ser evitadas e, jamais, facilitadas.
Seria possível enumerar outros tipos de circunstâncias, mas fixemo-nos apenas num muito concreto, pertencente ao segundo grupo que atrás se considerou. Falamos das situações matrimoniais complexas, que acabam, frequentemente com o desentendimento do casal e a sua separação.
As consequências são sempre desastrosas, embora, com raríssimas excepções, possa acontecer que a vida familiar se torne mais pacífica e normalizada, com a separação dos cônjuges.
No entanto, o que sucede normalmente, quando um casal desfaz o seu lar, é sempre uma sucessão multiforme de conflitos e decepções que provocam os seus autores, nomeadamente na sua descendência, se ela existe. Surge uma série de erupções na conduta, de conflitos psicológicos, de anomalias comportamentais, que sempre perturbam a vida e a normalidade de quem as experimenta.
Com certeza que podem criar-se situações que impossibilitem a vida do casal, mas, na actualidade, a sintomatologia do bem estar e uma visão muito egocêntrica convida à separação fácil, à liberdade de cada membro seguir a sua vida por conta própria. Não se encara o casamento como uma união duradoira, persistente e para sempre, mas como uma espécie de aventura de duas pessoas que se conheceram, ganharam intimidade e decidem viver em conjunto, embora tendo sempre presente que a união não deve ser indissolúvel, mas apenas duradoira enquanto os seus membros assim o determinarem.
Este panorama negativo convida à separação fácil, mesmo quando o casal tem descendência. E esta é sempre vítima dum abalo fortíssimo na sua vida. O pai e a mãe esquecem-se do que os seus filhos sofrem psicologicamente com a separação. Recordo-me de um rapaz de quinze anos, que me procurou com desespero, porque – dizia-me – “os meus pais separaram-se. Eu não fui capaz de manter a unidade entre os dois. Tentei, mas falhei...” Teve de recorrer à ajuda de um psicólogo, que o procurou animar, mas não conseguiu grandes resultados. A chaga sentimental e real do comportamento dos seus progenitores afectaram-no com brutalidade. Lembro ainda, quando era director dum centro de ensino particular que, numa certa vez, um aluno muito pacífico e normal, passou um dia escolar sempre irrequieto e somando asneira sobre asneira. Chamei-o e ele, muito transtornado, explicou-me: “ Os meus pais separaram-se. A minha mãe vive há tempos no estrangeiro com um senhor. Ontem, o meu pai, apareceu em casa com a sua nova companheira. E eu tenho agora de conviver com ela todos os dias...”
São situações duríssimas e lamentáveis. Com a nossa legislação a facilitar os divórcios, o convite para o esfacelamento das famílias não pode trazer bons efeitos.