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Lá no alto

O Alto Tâmega e Barroso (ATB) é um território de excelência ambiental, reconhecido como tal no PROT-Norte. A omnipresente orografia manifesta-se nas serras do Larouco, do Barroso e do Alvão, recortada por uma densa rede hidrográfica estruturada pelos rios Tâmega e Cávado e pelos seus afluentes — Beça, Terva e Rabagão.

É um território com perfume antigo, onde se preservam práticas e saberes ancestrais, reconhecidos na classificação do sistema agro‑silvo‑pastoril do Barroso como Património Agrícola Mundial da FAO. As entranhas das montanhas guardam nascentes singulares, conferindo à água um papel central, reforçado pelo termalismo, relevante durante a presença romana e novamente afirmado, sobretudo, na primeira metade do século XX. Água, bioprodutos, energia — hídrica, eólica e geotérmica —, turismo e uma emergente atividade industrial constituem hoje os pilares de uma estratégia de desenvolvimento que procura conciliar modernidade e sustentabilidade, num quadro de articulação entre os seis municípios.

O ensino superior tardou, mas a aposta na investigação e inovação tem vindo a manifestar-se de forma consistente e com impacto na economia — o Aquavalor é um excelente exemplo. O pulso cultural também ganha relevo: o Museu Nadir Afonso, em Chaves, e o Centro de Artes de Boticas assumem-se como espaços de referência; o Ecomuseu do Barroso e o Museu do Linho de Ribeira de Pena valorizam a identidade local; o Aquanatur Palace e festivais de diversa natureza atraem novos públicos e promovem uma progressiva miscigenação entre memória e contemporaneidade.

A paisagem destaca-se pela força e diversidade: impõe-se nos maciços graníticos do Gerês e do Barroso; revela-se no mistério dos vales profundos e encaixados do Cávado Superior, do Rabagão e do Beça, bem como da ribeira da Assureira; resiste como tempo suspenso nas aldeias de Pitões das Júnias, Tourém e Vilar de Perdizes; e abre-se na amplitude dos miradouros da Corujeira, de Fafião, de Santa Comba e do Larouco — verdadeiros balcões sobre o território. Não por acaso, Miguel Torga viu nestas terras uma síntese de aspereza e grandeza.

É uma paisagem evolutiva. As barragens construídas nas décadas de 1950 e 1960 — Venda Nova, Alto Rabagão e Paradela — e, mais recentemente, o sistema hidroelétrico do Tâmega (Gouvães, Daivões e Alto Tâmega) criaram grandes albufeiras que, além da produção energética e do seu papel estratégico de reserva, abriram novas oportunidades de valorização territorial: Ribeira de Pena ganhou um espelho de água notável, como já acontecera em Montalegre cerca de sessenta anos antes, com a barragem dos Pisões.

A agricultura também se transformou com expressão visível na paisagem, especialmente em Valpaços. De um modelo de subsistência centrado na batata e no centeio, evoluiu para uma atividade diversificada e orientada para o mercado, com destaque para a castanha e outros frutos secos, a fruta de polpa, a vinha, a apicultura e uma pecuária de qualidade — carne barrosã DOP e fumeiro. Acresce uma gestão florestal efetiva e assente, em grande medida, nos baldios comunitários. 

O ATB é também um território de imaginários — celebrados, por exemplo, nas sextas‑feiras 13 —, onde crenças e tradições se cruzam com uma gastronomia moldada pelo rigor do clima e pela autenticidade. O fumeiro e o folar são expressões do ADN do território.

A história está profundamente inscrita na paisagem. Os castelos medievais de Montalegre e de Chaves guardaram, durante séculos, a fronteira da raia seca, mas não impediram a passagem das tropas francesas comandadas por Soult, que, no início do século XIX, avançaram por esta zona da raia, contornando a resistência encontrada na linha do rio Minho. As ruínas do Mosteiro de Santa Maria das Júnias (século XII), encravadas num vale encaixado de difícil acesso, preservam a memória de uma rede monástica que articulava comunidades beneditinas e influências cistercienses do Noroeste peninsular, nomeadamente a de Santa Maria de Bouro. Ali perto, em Pitões, persiste a presença simbólica de São Rosendo, figura maior do século X na organização do monaquismo e no povoamento da antiga Galécia.

Mas a linha do tempo recua ainda mais: ao megalitismo; aos povoados castrejos — como Lesenho ou Sapelos; e à posterior presença romana e à progressiva integração do território, iniciada no final do século II a.C. e consolidada no início da era cristã, cuja herança permanece bem visível nas termas de Aquae Flaviae, cuidadosamente recuperadas pelo município de Chaves. Já no final do período romano, no século V, destacou-se Hidácio de Chaves — bispo, cronista e testemunha dos conflitos da época.

Foi a mineração que atraiu Roma a estas terras. Em Vila Pouca de Aguiar, Tresminas destaca‑se como um dos mais impressionantes complexos mineiros romanos da Península Ibérica, inserido numa vasta área mineira que inclui o Campo de Jales. Este património encontra‑se classificado como Monumento Nacional e integra uma candidatura a Património Mundial, em articulação com Las Médulas, em Castela e Leão. A pegada desta atividade estende-se a outros locais, como o Vale do Terva e o Poço das Feitas, em Boticas. Foi sobretudo o ouro que alimentou o império, embora outros metais — como prata, chumbo e estanho — também fossem aqui explorados e escoados pelas vias que integravam o território na rede romana da Hispânia.

Séculos depois, o ciclo repetiu-se com o volfrâmio. Iniciada no século XX e intensificada durante as guerras mundiais, a exploração atingiu o seu auge no complexo das Minas da Borralha, cujo impacto permanece visível. Estas minas introduziram a eletricidade, fixaram população e dinamizaram a formação técnica num território até então isolado.

Hoje, o lítio marca a agenda. Trata-se de um recurso estratégico, essencial à autonomia energética da Europa. Mesmo sob o conceito de "mineração sustentável", os impactos locais são inevitáveis, pelo que a exploração deve beneficiar o território envolvente de forma justa. Justa significa que a riqueza gerada não pode limitar-se a atravessar o território, deixando apenas cicatrizes. Implica retenção de valor — seja por royalties, fundos de desenvolvimento ou investimento direto nas comunidades. Significa, sobretudo, que a transformação do minério em produtos de maior valor acrescentado, potencialmente incluindo a sua refinação, deve ocorrer no próprio ATB, promovendo emprego qualificado e sustentável. E só o emprego de qualidade poderá inverter o principal desafio do território: a perda demográfica.

Ser daqui, lá no alto, é viver entre passado e futuro — e saber que o equilíbrio entre ambos moldará o território.

António M. Cunha

António M. Cunha

10 junho 2026