A cegueira em política conduz, inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, ao barranco; e isto quer dizer que todo o político que, apenas, se guie por si próprio, ignorando, pura e simplesmente, o que dele pensam e dizem, é a curto prazo um homem e político vencido, porque em política pior do que não ver é não querer ver.
Penso mesmo que o político sagaz e de bom senso, mais do que deixar-se guiar pela sua cabeça, sabe ouvir o que de si pensam e dizem os outros, sobretudo naquilo que constitui crítica construtiva (velada ou aberta) da sua atuação; e uma vez que a solidão, enquanto dogmatismo de ideias e princípios, na vida pública como privada, resulta sempre de um exagerado desprezo ou desprimor pelo que os outros dizem e pensam, como se a nossa verdade fosse a única verdade possível.
E se olharmos à nossa volta com olhos bem rasgados, com olhos de ver não teremos dúvidas de que muitos políticos vestem capas de mau pensar e pior agir; e se não conseguem discernir o que lhes é imposto e negado, então mais lhes vale de abandonarem tais exibições de chicos espertos e pouco mais.
Pois bem, há por aí certos políticos que, por ingenuidade ou cegueira, talvez mais por esta do que por aquela, estão já com um pé ou a perna toda, à beira do abismo, à beira do barranco; pois, eles já não são capazes de pensar com a sua própria cabeça, de ouvir uma crítica, de aceitar uma opinião; ao fim e ao cabo, são, sem sombra de dúvida, os fieis intérpretes da história do tal rei que ia nu.
E, então, é ver o que a política modifica os homens; por um lado, cria-lhes ilusões e devaneios mais próprios da adolescência (da vida) e capazes de os trazer nas nuvens, inchados como a rã da fábula que queria ser boi e, por outro lado, desvirtua-os naquilo que demais saudável e natural são feitos.
Tais homens são, afinal, aa vítimas fáceis de um narcisismo sem narciso que sempre se vangloriam de si próprios no espelho da autoafirmação e do trogloditismo mental; e num triste realidade capaz de os trazer acorrentados às virtualidades.
E, então, como na política partidária funciona a psicologia da tribo, eles são piores do que macacos, de galho em galho, guinchando trivialidades; e, como não podia deixar de ser os guinchos que exalam prolongam e refletem uma natural ambiguidade de opiniões e conceitos.
Depois, os bandos que naturalmente formam e outros tantos que, à parte, vão formando, obedecem, criteriosamente, disciplinadamente e cegamente a motivações pavlovianas; e, assim, vão agindo e reagindo em cadeia, por reflexos condicionados de um chefe, grupo ou ideologia que lideram, naturalmente, os comportamentos individuais e coletivos.
E esta atitude é o que, em termos vulgares e naturais, se traduz por fazer a cabeça ao indivíduo que é preciso pôr, custe o que custar doa a quem doer, do nosso
lado e incondicionalmente; tal e qual se triste é ser cego, mas triste será não querer ver, como muito sabiamente diz o nosso povo.
Ora, amigo leitor, se é político e pertence a algum partido político, espero que não tenha enfiado o barrete com aquilo que eu disse; mas, se o enfiou, ainda está a tempo de mudar e fugir ao barranco, embora perdendo a paixão desbragada que o domina politicamente.
E, mormente, tempo vai sendo de olhar mais para a realidade e verdade que à sua volta se desenham e que é, sem dúvida, também a sua verdade e realidade, embora muitas vezes não-verdade e não-realidade; e vá pensando no que diz, lá diz o velho ditado: quem te avisa teu amigo é.
Então, até de hoje a oito.