twitter

Cognomes antigos e modernos

Os Poetas desabafam e desintoxicam-se amiúde; os Romancistas e apresentadores de televisão – que normalmente acumulam ambos os feitos – proliferam, libertando-se de ilusões criadas, sem pagarem publicidade; os filósofos da fancaria abundam, pelas praças da cidade; os Historiadores defendem o que querem, esquecem o que lhes convém e predizem muitíssimo mais; certas opiniões públicas, tantas, são “histórias de lareira” com décadas de existência, rançosas!


 

No tempo que passa, os Órgãos de Comunicação Social estão sobrelotados de Especialistas como nunca se viu em Portugal, e nunca se viram neles tantos generais a opinar sobre a guerra actual no mundo, mas sem nunca participarem em guerras.


 

No meu caso, para estar bem informado e formado, possuo milhares de documentos na biblioteca, onde tantos me provocam o riso, a pena e a ira, mas vivo seguro do que vou dizendo e escrevendo.


 

Assim, calçando as luvas mais indicadas com que maneio o meu arquivo, bem como o uso de uma máscara que me protege a respiração, encontrei um livro que me serviu para conhecer a História de Portugal, na quarta classe, datado de 1938! Docemente folheei-o e recordei coisas. 

E quando me preparava para (docemente) o colocar no seu lugar, em prateleira aveludada, perguntei-me por que razão os Reis que nos governaram tinham o respectivo cognome.

 

Recordei que D. João III era o Piedoso; que D. Afonso VI era o Vitorioso e que Dona Maria II foi a Educadora e, todos os outros reis estavam cognominados. Então pus-me a reflectir no porquê, de a partir de 1910 em Portugal, não se continuar a cognominar os caudilhos das passadas e actuais repúblicas. O que me parece mau não ter sido feito! 


 

Pelo que, estando-se nos píncaros da informação democrática, onde se pretende também que o povo muito se esqueça, é positivo que se forme, se informe e se registe na história que o General Costa Gomes foi o Corticeiro; que o General Ramalho Eanes foi o Recuperador (e inventor de um partido político ainda em funções presidenciais); que o Dr. Mário Soares foi o Prático (socialista em Portugal e social-democrata no estrangeiro); que o Dr. Jorge Sampaio foi o Manobrador; que Cavaco Silva foi o Delicadinho; que o Guterres foi o Fugitivo; que o Dr. Durão Barroso foi o Medroso (e o inventor da tanga); que Santana Lopes foi o Perseguido (por ser inocente); que o Engenheiro Sócrates foi o Mentiroso, que Pedro Passos Coelho foi o Ali-Bàbá do século XXI em Portugal e, Costa, António Costa, o Bloqueador – (de resultados de eleições legislativas em Portugal, em 2015).


 

O povo, “o nosso povo” – como diria Álvaro Cunhal – tem necessidade de saber efectivamente quem são e o que foram os abrileiros da política, para não caírem em novos erros, como a “tanga” que sempre nos vai gelando. E toda esta “tanga” dificilmente digerida é pela falta dos cognomes, porque a memória tem sido curta a partir de 1910.


 

Prova-se assim, que por falhas na informação, houve perda de memória.


 

Hoje, informar é fácil e até já não é necessário escrever-se a fogo nas madeiras nem a cinzel no granito. Só os Grafitos – gente da noite – parecem ter necessidade de desabafar nas paredes de tons claros. 


 

Possuo boas leituras: são temas que desenvolvem amores desfeitos, amores traídos, vigarices de toda a ordem, mentiras das mais descabeladas, formas de enriquecer com dinheiro lavado, economias paralelas, filosofia dos apaixonados por assédios, dos frustrados, dos caudilhos portugueses e dos noctívagos da cow-boy-ada nacional.


 

Possuo ainda temas de ciência popular, isto é, ciência canina: como de mercenários de alma conspurcada, da futurologia de astrólogos sem telescópico, de consumidores de sina, de médiuns onde sobressai a loucura, ciência vulgarmente conhecida como “ciência ou a escrita dos deputados do diabo”. É certo que consulto mais do que leio, mas é para não plagiar ninguém ou para não ficar marcado por algum autor que abusivamente entre no meu “eu”, porque lugar sagrado!

 

Recuso-me a carregar com as ideias alheias: eu próprio penso, construo e sigo, obedecendo lealmente à minha consciência e ao total respeito de todos. Desse modo, não aponto ideais ou ensino filosofias alheias, não penso segundo os outros e não mostro uma inteligência ou sabedoria infundada, como constantemente é constatada na praça pública.


 

A vida vivida tem-me sido mestra e educadora. Não sou de Coimbra, mas tenho muita tarimba. E os pensamentos falados e escritos dos outros, só me “entram” se forem sérios e me ajudarem a crescer, o que é normal e saudável numa pessoa livre e de juízo.


 

Crescer é ânsia de qualquer, porque quem atinge o pico da vida, provou que é homem. No subir, que é sempre difícil, acontecem quedas de percurso. Mas quem não cresce e não sobe, nunca descobrirá a beleza da paisagem nem estará (nunca) perto do azul dos céus.


 


 

(Não segue o acordo ortográfico de 1990)

Artur Soares

Artur Soares

8 maio 2026