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Rua D. Pedro V: a má decisão que vai piorar o transporte público

Há mais de 15 anos que defendo, pública e indubitavelmente, que deve existir um bom serviço de transportes públicos a servir o eixo que vai desde a estação da CP, atravessa o centro da cidade, passa pela Rua D. Pedro V, pela Rua Nova de Santa Cruz, até ao Campus de Gualtar da Universidade do Minho.

Este eixo habituou-se a ter transporte público. Foram mais de 130 anos com circulação nos dois sentidos. E essa habituação também conta.

Um bom serviço de transportes públicos significa, sem margem para dúvidas, dois sentidos na mesma rua.

Em 2024 surgiram notícias com falsidades sobre o posicionamento da Junta de São Victor, de moradores e de comerciantes. A 6 de outubro de 2024 esclareci o posicionamento, alertei para o precedente negativo da Rua Nova de Santa Cruz e para o impacto de retirar um dos sentidos na Rua D. Pedro V: mata-se a simplicidade e a legibilidade do serviço.

A posição era clara: não repetir o erro e manter os dois sentidos de transporte público.

Durante o último mandato, a Junta de São Victor enviou vários ofícios a pedir a repavimentação da rua, sempre com a condição de manter os dois sentidos dos transportes públicos. A Assembleia de Freguesia aprovou uma recomendação no mesmo sentido.

A Câmara deixou a rua degradar-se e agora, os mesmos que deixaram a rua chegar ao que chegou, usam esse estado para justificar uma má decisão.

Na reunião, antes de votar, pedimos ao Presidente da Câmara que retirasse a alteração à sinalização que estava ali em votação e que mantivesse os dois sentidos para o transporte público (autocarros e táxis).

A resposta foi clara: não abdica da opção de um só sentido para o transporte público. Nas palavras do Presidente, o transporte público nos dois sentidos estorva os carros.

Está tudo dito. A opção foi privilegiar alguns carros e prejudicar os mais de 10 mil utilizadores das linhas de transporte público e de táxis que diariamente passam nesta rua. Um transporte público não serve apenas uma rua. Serve uma relação de ida e volta. Serve um território maior e serve uma rede.

Para ser útil, tem de ser simples: a pessoa tem de saber onde apanha o autocarro – que será o mesmo sítio onde regressa, para onde vai e de quanto em quanto tempo passa ali. Quando a ida é por uma rua e a volta por outra, o serviço deixa de ser intuitivo: fica mais confuso, mais demorado e menos utilizado nessas ruas.

Quem usa transporte público não deve precisar de estudar um mapa para perceber como volta. “Vou pela D. Pedro V, volto pela D. Pedro V”. Era simples. “Vou pela D. Pedro V, volto pela Rodovia (Av. João Paulo II)” cria fricção. E no transporte público, cada fricção conta.

Fazem discursos em que dizem que “chegou a era do transporte público”, mas depois tomam opções políticas que demonstram que querem continuar a prejudicar o transporte público.

Nós fomos eleitos com outra opção política, com a de privilegiar o transporte público, com a de lhe dar as condições para ser competitivo em Braga. O ponto 106 do nosso programa eleitoral é “Reorganizar as ruas para garantir a legibilidade dos percursos dos TUB”. Só se consegue legibilidade quando o transporte público circula nos dois sentidos na mesma rua.

Como explica Jarrett Walker, estes desvios entre ida e volta, chamados “one-way splits”, são um problema clássico e recorrente nos transportes públicos: confundem os percursos e reduzem a utilidade real das linhas de transporte público.

Se o transporte público fica menos direto, menos previsível e mais difícil de usar, as pessoas deixam de o escolher. E quando isso acontece, não é por acaso. É porque foi desenhado assim.

Há cidades onde isto acontece, mas não porque seja uma boa solução. Quando há a hipótese de ter dois sentidos na mesma rua, como há na D. Pedro V, escolher pior não é inevitável. É uma má decisão.

Tecnicamente, é possível manter os dois sentidos naquele eixo. Politicamente, também. Mas isso exige uma escolha clara: dar prioridade ao transporte público.

A decisão tomada vai no sentido contrário. É mais uma decisão de continuidade de quem governa há vários mandatos. Mais uma decisão que prejudica o transporte público.

O meu voto não está à venda. Honrarei o programa com que fui eleito e aquilo que sempre defendi. Não contem comigo para prejudicar o transporte público.

A mobilidade não se declara. Desenha-se. E na Rua D. Pedro V foi agora desenhada contra o transporte público.

Mário Meireles

Mário Meireles

7 maio 2026