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Onde moram os corações de quem cuida. Saúde mental: cuidar de quem cuida

Os hospitais estão cheios de vidas, mas os que cuidam carregam feridas silenciosas, invisíveis. Médicos, enfermeiros e outros profissionais movem-se entre urgências e decisões críticas, muitas vezes em modo de sobrevivência, respondendo ao stress antes de o sentirem. O corpo funciona, a mente adia a dor, e a alma aprende a dissociar-se. 

Viver neste estado de urgência permanente mantém-nos funcionais, mas afasta-nos da própria humanidade. Cada turno deixa marcas invisíveis; cada decisão acumula peso. A empatia transforma-se em esforço, a presença em resistência silenciosa, a dedicação em fardo. 

Entre corredores sobrecarregados e turnos sem fim, instala-se uma tensão discreta entre cuidar dos outros e esquecer-se de si. Cada gesto consome fragmentos da própria existência. A rotina torna-se contenção, a sensibilidade mantém-se em alerta, e o tempo para respirar ou simplesmente se reconhecer escapa sempre. 

A síndrome do impostor acompanha muitos destes profissionais. A sensação de não ser suficiente instala-se de forma persistente. A pressão constante e a exigência de disponibilidade permanente alimentam uma dúvida interior que corrói a confiança e intensifica a exaustão. Reconhecer limites, aceitar vulnerabilidade e pedir ajuda não diminui a competência — protege a humanidade. 

Neste contexto, importa também reconhecer que o sofrimento não nasce apenas no indivíduo, mas nas estruturas onde o trabalho acontece. O assédio moral, quando existe, raramente se anuncia de forma clara: insinua-se na erosão da dignidade com que o trabalho deveria ser sustentado. Mas importa não perder a precisão das palavras — porque, quando tudo se confunde sob o mesmo nome, abre-se espaço à perversão do conceito e à sua banalização, capaz de inverter a realidade e transformar a exigência profissional em interpretação indevida. O que se diz do outro raramente é neutro: revela sempre um lugar de onde se olha. É aqui que o olhar exige justiça: distinguir sem apagar. 

Neurocientistas alertam que o stress prolongado, frequentemente associado ao burnout, altera o funcionamento do cérebro, afetando memória, concentração e regulação emocional. Sem apoio, os cuidadores comprometem não apenas a sua saúde, mas também a qualidade do cuidado.

Fala-se muito em “cuidar de quem cuida”, mas não basta repetir a frase: é preciso criar condições reais de descanso, escuta e apoio psicológico. Ninguém consegue cuidar de forma inteira quando está exausto. Preservar a própria humanidade é também cuidar dos outros. 

Como escreve António Lobo Antunes, “somos casas muito grandes, muito compridas”, e muitas vezes habitamos apenas uma pequena parte de nós. Entre fragilidade e força, é nesse espaço que se decide o coração da nossa humanidade. 

A grandeza de quem cuida não está em esconder a vulnerabilidade, mas em ter a coragem de a reconhecer e permanecer inteiro, tanto para os outros como para si próprio." 

Catarina Chaves e Joana Costa Leal

Catarina Chaves e Joana Costa Leal

8 maio 2026