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5 de Maio – Dia Mundial da Língua Portuguesa

Hoje, dia 5 de Maio, celebra-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Instituída em 2019 pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), esta é a data que celebra a língua que une cerca de 265 milhões de pessoas. Isto sem contar com todos os que aprendem português como segunda língua.

Habituamo-nos a ver a língua como algo natural a uma nação, algo que nasce tal como cada um de nós nasce com sangue nas veias. Não pensamos na língua como uma construção e muito menos pensamos nela como uma escolha. Mas a verdade é que uma língua se constrói e não tão raras vezes assim, se escolhe. A escolha de uma língua pode mesmo chegar a resultar de decisões instrumentais e políticas. De um ponto de vista estritamente pessoal, por exemplo, podemos optar por aprender uma língua por nela se antecipar uma porta aberta a novos mercados, a novas de oportunidades de trabalho, ou simplesmente pela beleza que nela vemos ou porque nos permite comunicar com quem amamos. De um ponto de vista coletivo, uma língua outrora colonial, pode ser instituída como língua oficial para facilitar a circulação e afirmação do poder do Estado Central num contexto de ampla diversidade etnolinguística (penso por exemplo no caso de Angola, ou da Guiné-Bissau). Até pode dar-se o caso de optar-se pela adoção de uma língua como terceira língua oficial para expandir os interesses estratégicos do Estado (penso no caso da Guiné Equatorial, que por via da oficialização do português em 2010, conseguiu cumprir com o critério básico para acesso à CPLP em 2014 – já se deveria ter sido aceite como membro, é conta de outro rosário que podemos desfiar em outra altura). Mas também se pode escolher uma língua, mesmo quando colonial, como instrumento de resistência política e sobretudo de resistência cultural e identitária, como claramente o demonstra o caso de Timor-Leste.

Certo mesmo é que neste universo de cerca de 265 milhões de pessoas (há quem fale em números mais elevados), há algo mágico e singular que acontece: a capacidade de sentir na mesma língua. Não é apenas a capacidade de se entenderem, porque para isso basta que se aprendam novas línguas. É mesmo a capacidade de sentir. Quando estava em Inglaterra costumava dizer aos meus colegas de doutoramento que até já dava por mim a pensar em inglês, mas sentir, só sentia em português. Um poeta consegue certamente explicar, e em poucas palavras, o que eu não consigo escrever melhor. Mas é isto mesmo: aprendemos a sentir, a ver, a pensar e a expressar o que temos em nós através de uma primeira língua e isso faz toda a diferença.

Às primeiras palavras ditas por um Brasileiro, ou um Moçambicano, podemos até responder com um certo desconcerto, estranhando, parecendo não reconhecer ali a mesma língua. São muitos os sotaques, as pronúncias, os jargões, os calões, as expressões idiomáticas, e são muitos os trânsitos temporais que levam palavras a serem arcaicas num lugar enquanto permanecem vivas noutro; que as levam a ter um significado aqui e outro bem distinto (por vezes jocoso ou até ofensivo) ali; e são muitos os estrangeirismos que com elas convivem, mas não necessariamente nas mesmas geografias. Porém, a língua-mãe está lá, como o leito de um rio no qual se vai depositando toda a história dessa riqueza partilhada, e que explica até o porquê desses breves desencontros entre quem, falando a mesma língua parece todavia falar outra. E isto leva-me inevitavelmente a sublinhar algo maravilhoso que acontece: repare-se que a língua portuguesa não deixa de ser Língua, não perde identidade, nem perde valor (bem pelo contrário) por ser vivida, sentida, pensada, escrita, declamada, cantada, falada, nessa diversidade que a própria vida e a história de cada povo consente e explica. Esses pequeninos desencontros afinal são a prova de um encontro maior, a prova da dança, da festa em torno de uma só Língua. Parece-me algo tão evidente. Para os puristas das identidades, que bom seria se pudessem olhar para a nossa língua, e perceber que ela se mantém viva, forte, e falada por milhões de pessoas no mundo precisamente porque este leito de rio deixa que por ele corram águas de criatividade, de diversidade, de pluralidade. De contrário, já estaria quase extinta. Ora, ninguém pensa, sente ou vive em língua morta. Que bom, que privilégio imenso é ter gente que sente e escreve em língua portuguesa! Digo ‘sente e escreve’ no presente porque os poetas e os escritores só morrem quando os deixamos de ler. Autores tão distintos no tempo, no estilo, no génio, nas lutas, como Mia Couto, Paulina Chiziane (Moçambique), Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado, Conceição Evaristo (Brasil), Pepetela, José Eduardo Agualusa, Ondjaki (Angola), Maria Odete Semedo, Vasco Cabral (Guiné-Bissau), Germano Almeida, Vera Duarte (Cabo Verde), Alda do Espírito Santo, Olinda Beja (São Tomé e Príncipe), Luís Cardoso, Fernando Sylvan (Timor Leste), todos eles e todas elas são, juntamente com os nossos grandes, os magos que convocam a língua portuguesa para a dança da sua intemporalidade. Só lhes podemos estar gratos.

E são muitas as formas de gratidão. Uma poderá ser a leitura de uma obra sua, ou de qualquer outro escritor ou poeta lusófono, vivo ou já ausente. Mas a gratidão também pode ter uma forma mais singela. Que tal por exemplo escrever, ao menos no dia de hoje, uma frase que seja, sem erros, nas muitas publicações que fazemos nas redes sociais? Fosse eu escritora, e para mim já bastaria.

Isabel Estrada Carvalhais

Isabel Estrada Carvalhais

5 maio 2026