Dia da Mãe? Dia do Pai? Esqueçam. Ou preparem-se para arrumar estes dias tão belos nas arcas das recordações mais carregadas de nostalgia.
O primeiro sinal foi dado num país formalmente democrático, da União Europeia: os Países Baixos.
O Ministério da Educação elaborou um guião – onde investiu 40.000 euros – que «recomenda» a substituição das palavras «Pai» e «Mãe» por «expressões neutras».
Para já, a «recomendação» é dirigida a organismos oficiais. Mas isso não minimiza o alcance da medida. Como alertou Marieke Hoogwout, «quando o poder determina as palavras que se devem usar, está a formatar o modo de pensar de toda a sociedade».
Quais são, então, as «expressões neutras», propostas como alternativa a «Pai» e «Mãe»?
O governo anterior já tinha decidido que, no registo civil, a palavra «Mãe» deveria ser trocada pela locução – pasme-se – «progenitor de quem nasceu o filho».
Olhando para a sobredita determinação, será que um filho irá tratar a sua Mãe como «progenitora de quem nasci»?
Vai saudar a sua Mãe com um cacofónico «bom dia, progenitora de quem nasci»? Às vezes, gostamos mesmo de acionar o complicador.
Como seria de esperar, o Estado resolveu alterar as designações do «Dia da Mãe» e do «Dia do Pai».
Em défice de criatividade e em crise de bom gosto, o documento governamental preceitua que estes dois dias sejam reconvertidos num desenxabido «Dia do Tu».
O pretexto é a famosa – mas cada vez mais entediante – «inclusão». Com a instauração do «Dia do Tu», pretende-se «incluir as famílias de todo o tipo, evitando qualquer forma de discriminação».
O desconforto, que este entendimento restrito de «inclusão» desencadeia, é fácil de perceber. Custa assim tanto admitir que, em vez de inclusão, estão a promover precisamente o oposto, a exclusão?
Que cada um trate os outros – ascendentes ou descendentes – como entender. Será, porém, competência do Estado padronizar as formas de tratamento?
Excluir os vocábulos «Pai» e «Mãe» honrará a pluralidade, um dos traços identitários da democracia?
Verdade seja dita que nem no executivo neerlandês a caprichosa resolução encontrou consenso.
A própria Secretária de Estado da Educação considera que o guião é «paternalista» não sendo, por isso, «a melhor ferramenta» para acomodar esta discussão.
Sucede que, a montante de qualquer debate, há que ter presente que «Pai» e «Mãe» não são palavras para mero uso administrativo.
Elas consignam uma realidade antropológica com raízes na experiência universal de transmissão da vida. Pelo que substituí-las por expressões híbridas conduz a uma fragilização das referências fundamentais da identidade da pessoa.
Esperemos que tudo isto não passe de um devaneio terminológico — a somar a tantos despautérios semelhantes — e que se estacione por aqui.
À beira do abismo, há uma única forma de dar um passo em frente: é dar um passo atrás. A menos que o ocidente queira colapsar num irremissível acidente!