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A jornada de uma Esposa: Como apoiar um Veterano sem se perder

Quando a Rússia lançou o seu primeiro ataque contra a Ucrânia em 2014, o meu marido foi logo para a linha da frente. Passei muito tempo a chorar e a implorar-lhe para ficar em casa. Acreditava que, se encontrasse as palavras certas, ele reconsideraria e talvez até mudasse de ideia. No entanto, a guerra não deixa espaço para esse tipo de decisões. Em 2022, quando começou a invasão em grande escala da Rússia, arrumei em silêncio o seu uniforme na mochila. Não porque deixei de ter medo, mas porque compreendi que apoio não é sobre lágrimas; apoio é sobre ser mais forte.

Sou esposa de um veterano do Corpo de Fuzileiros Navais, comandante da 36.ª Brigada de Fuzileiros Navais, Dmytro Hnatiuk. Ao longo dos anos de guerra, passei da confusão e do medo para um compromisso consciente de lutar pela vida do meu marido, pela sua recuperação e de me tornar um agente de mudança para outros veteranos. E o nosso caminho depois da guerra revelou-se tão difícil quanto a própria guerra.

Quando o meu marido ficou gravemente ferido, depressa percebi uma coisa: se eu não me envolvesse, o sistema esmagar-nos-ia. O tratamento aconteceu em diferentes cidades e demorou muito tempo até se determinar o diagnóstico correto. Houve problemas com documentos perdidos, muita burocracia e atrasos nos pagamentos. Comecei a estudar todos os protocolos médicos, a procurar médicos, a contactar autoridades militares, a tentar compreender todos os regulamentos e a preencher formulários de candidatura. A certa altura percebi que me tinha tornado médica, advogada e psicóloga ao mesmo tempo. Não por escolha, mas por necessidade.

Mas a parte mais difícil veio depois. Depois do ferimento, Dmytro quase não falou durante muito tempo. Devido a uma lesão no nervo trigémeo e a um traumatismo craniano, era extremamente difícil até formar frases simples. Os nossos dias regiam-se por um mesmo padrão: injeções, medicamentos e depois dormir. Os médicos prescreveram-lhe vários analgésicos. Ele dormia a maior parte do dia e depois apenas ficava sentado sem dizer uma palavra. Às vezes deitava-se e jogava um jogo no smartphone – organizando e adivinhando palavras. Era o seu pequeno ritual de terapia diária, um exercício para o cérebro, a memória e a fala. Um homem que comandava uma unidade e geria um negócio encontrou-se de repente num quarto onde os principais acontecimentos do dia eram tomar o próximo comprimido, receber um soro e dormir.


 

Nesses momentos percebi verdadeiramente, pela primeira vez, que a guerra não termina quando um soldado regressa a casa. Ela entra de novo na sua casa. E então surge outra questão para a família: como apoiar o veterano sem perder a própria identidade. Descobri que apoiar não significa apenas sentar-se ao lado da pessoa num quarto de hospital. Apoiar também significa caminhar ao seu lado e abrir caminho. E foi isso que esta jornada me ensinou.


 

A guerra não passa sem deixar cicatrizes. Ferimentos, concussões, dor constante — tudo isso não diz respeito apenas à condição física. Significa que uma pessoa diferente regressa a casa. O meu marido teve de reaprender a falar, a formar frases corretamente e a lidar com a dor. Durante seis meses após o regresso, Dmytro quase não saiu de casa. Era difícil para ele lidar com ambientes barulhentos, multidões e conversas longas. E então percebi algo importante: ao lidar com um veterano, não se pode esperar que tudo seja como antes. Na verdade, nunca mais será igual. Será diferente. Apoiar um veterano significa aceitar a sua nova realidade e construir uma nova vida juntos à sua volta.


 


 

*Esposa de um veterano do Corpo de Fuzileiros Navais, participante do projeto para veteranos “Tribe” da Amnesty International Ucrânia

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Veronika Hnatiuk

18 março 2026