São José é habitualmente – e muito a propósito – apresentado como modelo: de trabalhador, de esposo e de pai.
Creio que, mais vastamente, não será desajustado apontá-lo como modelo de humanidade: de uma humanidade que tarda em reencontrar-se consigo mesma, com a sua bondade encoberta, com a sua beleza desfigurada.
Nesta sociedade que padece – até à exaustão – de incontinência verbal, José é conhecido não pelo que diz, mas pelo que faz, pelo que cuida e até pelo que sonha.
Por brevíssima indicação de Mateus (cf. 13, 55), sabemos que José seria especificamente carpinteiro ou genericamente artesão («tektón»). Muitos quadros da Sagrada Família mostram José na oficina, Maria em diversos labores e Jesus adolescente a ajudar o pai.
Todos os acontecimentos da vida de José têm o mesmo significado e uma única direção: Maria e Jesus. O que ele pretende é cuidar de Maria e proteger Jesus.
Em função disso, revela um conjunto de atributos que, estando hoje praticamente em desuso, são absolutamente indispensáveis em qualquer estado de vida.
Na civilização do conforto, José confronta-nos com um espírito de autodomínio e abnegação fora do comum.
Basta pensar na aceitação da gravidez de Maria, não A denunciando como estipulava a Lei (cf. Mt 1, 18-24), e no sobressalto da fuga para o Egito a fim de evitar a morte prematura de Jesus a mando de Herodes (cf. Mt 2, 13-23).
Na era da suspeita, José avulta como referência da confiança. Embora a dúvida paire no seu interior, confia em Deus e avança na fé.
Que esperar de uma humanidade sem fé, onde não se confia?
Na época da precipitação e da pressão, José sobressai pela prudência e pela dignidade, sem qualquer lamento.
Não decide com base no que os olhos registam, mas a partir do que a fé revela.
No tempo em que a indolência paralisa e o desânimo entorpece, José destaca-se pela constância, pela diligência.
Trabalha com dedicação e esperança, sem arrufos ou enfado.
José é o homem sem a menor obsessão pelo protagonismo. Depois do episódio da perda de Jesus no Templo (cf. Lc 2, 41-52), desaparece de cena e nada mais sabemos dele.
José é o homem que guarda silêncio e a quem o silêncio guarda. E o seu eloquente silêncio não foi engolido pelos séculos.
Mas José é também o homem que sonha (cf. Mt 1, 18-24). E como faz falta sonhar hoje: de noite e sobretudo de dia. O mundo está deprimido por causa de tantos sonhos desfeitos. É preciso reconstruí-lo com suporte em sonhos refeitos.
O Papa Francisco não ocultou: «Quando tenho um problema, escrevo-o num papel e coloco-o debaixo de São José, para que o sonhe».
São José, sonha connosco uma humanidade diferente: sem guerras nem rancores, sem distopias nem injustiças.
São José, que realizemos contigo o sonho d’Aquele que neste mundo te chamou pai: o sonho de uma humanidade onde a lei suprema seja o Amor!