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Por Entre Linhas e Ideias

Ainda precisamos de professores? Escrevo esta crónica a partir da cidade da Horta, na ilha do Faial, com a presença imponente da Ilha do Pico diante do meu horizonte. Vim até aqui no âmbito dos XXX Encontros Filosóficos, a convite da Escola Secundária Manuel de Arriaga, para desenvolver várias atividades com alunos e professores. O dia começou de manhã com encontros e conversas nas escolas e terminou, ao final da tarde, na Biblioteca Municipal da Horta, onde, juntamente com o filósofo Nuno Fadigas, participámos num Café Filosófico perante uma sala completamente cheia. Foi um daqueles momentos raros em que professores, alunos e representantes de instituições locais se sentam lado a lado para pensar em conjunto e partilhar ideias sobre educação, conhecimento e futuro.

É precisamente neste ponto que começa a revelar-se o verdadeiro significado de ser professor. O ato pedagógico pode entender-se como um ato de comunicação humana orientado para a formação intelectual e moral do outro, mas é também um ato de saberes e de exigência permanente, pois ensinar implica estudo, preparação e formação contínua. Existe igualmente nele uma dimensão inevitável de solidão, já que o professor regressa todos os anos à sala de aula diante de novos alunos e de novas gerações, recomeçando o mesmo gesto pedagógico que sustenta a vida da escola. Como em tantas outras profissões conhece alegrias e dificuldades, mas a sua tarefa possui algo de singular, porque naquele encontro entre professor e aluno podem sempre nascer novas expetativas.

Essa dimensão profundamente humana do ensino é destacada pelo filósofo Georges Gusdorf no seu livro Professores para quê? ao recordar que o professor não é apenas um transmissor de conteúdos, mas alguém que acompanha o aluno no processo de descobrir o sentido do conhecimento e do próprio mundo, ajudando-o a construir um caminho intelectual que é sempre pessoal. Por outro lado, esta dimensão relacional aproxima-se também daquilo que o filósofo Martin Buber descreveu como a estrutura fundamental do encontro humano. Na sua filosofia do diálogo, o verdadeiro encontro acontece na ontologia do diálogo, ou seja, um espaço onde duas consciências se reconhecem e se interpelam mutuamente. É por isso que a educação pertence claramente a esse território do encontro humano, pois o professor não se dirige a um objeto que precisa de ser programado, mas a uma pessoa em formação. Nesse encontro, o conhecimento ganha vida e significado, por isso, a relação professor-aluno possui uma densidade humana que nenhuma máquina consegue reproduzir.

Durante a conversa na biblioteca lembrei que um professor não se mede apenas pelo que explica, mas sobretudo pelo pensamento que consegue despertar nos seus alunos. Como recorda o filósofo Fernando Savater, a única revolução capaz de trazer verdadeira paz ao mundo é uma revolução não violenta realizada através da educação. É nessa transformação silenciosa que os professores desempenham um papel decisivo, ajudando cada nova geração a compreender o mundo, a desenvolver pensamento crítico e a reconhecer os valores que tornam possível a vida em comum.

Neste espaço de partilha foi vincado que, mesmo num tempo marcado por profundas transformações tecnológicas, continua a ser difícil imaginar uma sociedade verdadeiramente educada sem professores. Eles constituem, de certo modo, a base de todas as outras profissões, porque antes de existir qualquer médico, engenheiro, jurista ou cientista houve necessariamente um professor que ajudou a formar esse percurso.

O encontro na Horta foi, acima de tudo, um exercício de reflexão e de diálogo. No final de um dia completo de atividades filosóficas dirigidas aos alunos, aos professores e à comunidade faialense, o balanço que fica é precisamente esse momento de pensamento partilhado em torno da educação. Num tempo em que se fala tanto de tecnologia e inovação, importa recordar que a escola, a educação e os professores continuam a ser pilares essenciais de qualquer sociedade democrática, pois é nesse espaço que se formam cidadãos e se cultiva o pensamento crítico.

Fica o convite para prolongar esta reflexão para além da Biblioteca Municipal da Horta e imaginar este Café Filosófico a continuar noutras salas, também entre os leitores do Diário do Minho.


 

- E se amanhã ficássemos sem professores e sem escolas, como ficaria a sociedade?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

18 março 2026