A Anthropic, empresa norte-americana responsável pelo assistente de inteligência artificial Claude, publicou recentemente um estudo sobre o impacto da IA no mercado de trabalho. O estudo merece a nossa atenção porque não se limita a reflexões teóricas, cruzando a investigação teórica com dados reais de utilização destas ferramentas em milhares de tarefas profissionais.
Na verdade, ainda é cedo para identificar tendências totalmente consolidadas pois estamos numa fase relativamente inicial da adoção destas tecnologias e muitas transformações ainda estão em curso. No entanto, os primeiros sinais já permitem perceber algumas direções importantes que devemos levar em consideração.
Por um lado, surgem oportunidades inequívocas. A inteligência artificial pode aumentar significativamente a produtividade em diversas áreas, sobretudo nas profissões baseadas em conhecimento. Programação, análise de dados, marketing, produção de conteúdos, apoio ao cliente ou investigação são exemplos onde a IA já funciona como um verdadeiro “copiloto” profissional.
Na maioria dos casos analisados, a tecnologia não substitui completamente o trabalhador. Em vez disso, funciona como uma ferramenta de apoio que permite executar tarefas mais rapidamente, automatizar partes do trabalho mais rotineiras e libertar tempo para atividades de maior valor acrescentado. E não há dúvidas que este efeito de amplificação pode trazer ganhos reais para empresas, profissionais e para a economia em geral.
Contudo, o estudo também aponta alguns sinais que merecem reflexão.
Um dos mais relevantes é a possível redução da procura por perfis mais juniores. Muitas das tarefas tradicionalmente atribuídas a recém-licenciados ou a profissionais em início de carreira como análise preliminar de informação, preparação de relatórios, programação básica ou síntese documental, são precisamente aquelas onde a inteligência artificial demonstra maior capacidade de apoio ou automatização.
Ora este fenómeno levanta uma questão fundamental para o futuro do trabalho, pois grande parte das competências profissionais não nasce pronta. Constrói-se ao longo do tempo, através de experiência acumulada. Começa-se por tarefas mais simples, aprende-se com colegas mais experientes, cometem-se erros, ganham-se responsabilidades e desenvolve-se gradualmente o conhecimento necessário para assumir funções mais complexas. É assim que se formam os especialistas, os gestores e os líderes das próximas décadas.
Se reduzirmos drasticamente as oportunidades de entrada no mercado de trabalho para jovens profissionais, corremos o risco de interromper esse ciclo natural de aprendizagem. Em termos simples, se não criarmos espaço para o início das carreiras, quem serão os profissionais experientes de amanhã?
A pergunta pode parecer distante, mas os impactos já se vêem hoje. Que sociedade de trabalho estamos a construir se dificultarmos o acesso das novas gerações às primeiras oportunidades profissionais?
Naturalmente, a história mostra também que as grandes revoluções tecnológicas acabam por criar também novas profissões, novos sectores e novas formas de trabalho. Foi assim com a mecanização, com a informática ou com a internet.
Mas essas transições nunca foram automáticas nem isentas de desafios.
Exigem adaptação das empresas, evolução dos sistemas de ensino, políticas públicas atentas e, acima de tudo, consciência coletiva de que o progresso tecnológico deve caminhar lado a lado com o progresso social.
Hoje, estamos ainda numa fase relativamente precoce da transformação provocada pela inteligência artificial. Precisamente por isso, este é o momento certo para observar os sinais, discutir os impactos e preparar respostas equilibradas.
Porque quando as mudanças estruturais se tornam plenamente visíveis no dia-a-dia da economia e da sociedade, muitas vezes já chegámos tarde para corrigir os seus efeitos e vamos correr atrás do prejuízo!
Estudo disponível em:
https://www.anthropic.com/research/labor-market-impacts