Porque apostamos? Venho falar-vos de um assunto que pode parecer estranho, mas que merece reflexão. Sempre que vejo pessoas em filas para apostar em jogos de sorte, em jogos de cartas ou de tabuleiro, ou alguém a lançar uma moeda ao ar para decidir entre duas opções, impressiona-me a força que a aposta exerce sobre o ser humano. Apostamos dinheiro, tempo e reputação na esperança de que algo mude para melhor. Quanto mais observo este impulso, mais me convenço de que apostar é algo comum, uma dimensão profunda da nossa existência, e que viver exige apostar.
Como apreciador de mitologia e supondo que muitos dos nossos leitores partilham esse gosto, recorro ao mito de Er, contado por Platão no final da sua obra A República. No mito, as almas, antes de regressarem à Terra, têm de escolher a sua próxima vida e diante delas estão vários destinos possíveis, vidas de poder, anonimato, sofrimento e glória. Cada alma escolhe sem saber plenamente o que cada vida implicará e, por isso, algumas, seduzidas pelo brilho, fazem escolhas desastrosas, enquanto outras, mais prudentes, escolhem com reflexão. Cada decisão torna-se assim uma aposta existencial e o mito sugere algo desconcertante e atual, que a nossa vida inteira pode ser entendida como uma aposta feita sob incerteza. Como observava Aristóteles, “deliberamos não sobre os fins, mas sobre os meios”, o que significa que agimos sempre sob incerteza, ponderando o que pode acontecer e nunca o que é absolutamente garantido.
Seguindo esta lógica da aposta, apresento aos leitores uma das apostas mais célebres da filosofia, de Blaise Pascal. Ele parte da constatação de que não podemos provar se Deus existe, mas ainda assim somos obrigados a viver como se uma das hipóteses fosse verdadeira. Apostar na existência de Deus é, segundo ele, a escolha mais vantajosa, pois se Deus existir o ganho é infinito, enquanto a perda, se Ele não existir, permanece limitada. Como escreve, “Apostar é inevitável; já estamos comprometidos”, mostrando que a nossa vida se desenrola entre escolhas e decisões feitas sem certezas.
Vejo esta mesma linha de raciocínio de forma muito clara na educação, onde passo grande parte dos meus dias. Ensinar é apostar, pois quando entro numa sala de aula invisto palavras, ideias e expectativas em algo cujo resultado nunca posso prever. Aposto que uma pergunta desperte curiosidade, que uma ideia abra horizontes e que um aluno guarde uma inquietação, numa aposta no seu futuro. É essa confiança no potencial de cada aluno que Sir Ken Robinson sublinhava nas suas célebres palestras sobre educação, que convido os leitores a procurar no YouTube. A educação vive dessa aposta no futuro e sem a disposição para apostar nos outros seria simplesmente impensável.
Por outro lado, a literatura e o cinema, tornam esta pulsão humana particularmente visível. Em O Jogador, de Dostoiévski, o protagonista permanece hipnotizado diante da roleta e, embora perca repetidamente, a possibilidade de ganhar mantém-no preso à mesa. Não se trata apenas de dinheiro, mas da convicção de que uma única jogada poderá reescrever a sua vida. De modo semelhante, em Match Point, de Woody Allen, a bola de ténis toca na rede e fica suspensa por um instante, podendo cair para um lado ou outro, sendo dessa queda que depende ganhar ou perder. Não se reconhecem nesta metáfora sempre que fazem uma aposta?
O conhecimento não escapa à dinâmica da aposta. O filósofo americano Edmund Gettier, que questionou ideias antigas sobre a crença verdadeira e justificada, mostrou que podemos estar certos por coincidência e não por verdadeiro conhecimento. A velha metáfora do relógio parado, que acerta duas vezes por dia, ilustra bem esta inquietação, pois confiar numa explicação é também uma aposta, já que nem sempre sabemos se ela resistirá ao confronto com a realidade.
Caminhamos para o términus desta crónica lembrando que a aposta é menos um vício ocasional e mais uma imagem da condição humana. Apostamos porque o futuro não nos é dado e precisa de ser construído a partir de escolhas incertas, sustentados por uma mistura de razão e esperança. Se é verdade que não podemos evitar apostar, resta então uma questão mais exigente, que merece acompanhar-nos para lá desta leitura e prolongar-se nas conversas dos próximos dias.
- Se a vida é inevitavelmente uma aposta, em que é que vale realmente a pena apostar?