Tendo ocorrido recentemente o 50.º aniversário da aprovação da Constituição da República Portuguesa devemos aproveitar a oportunidade de refletir seriamente naquilo em que o ‘nosso’ Parlamento se tem vindo a tornar: uma escola de má-educação nos mais díspares sentidos da expressão. Os ditos deputados – mais vezes do que seria desejável – comportam-se pior do que criancinhas em jardim-de-infância, tendo em conta o que dizem, o que fazem e o modo infantilizado como se mostram ao país: gestos, palavras, barulhos, reações, provocações, desrespeitos, impropérios, atitudes… têm vindo a criar um ambiente para tudo o que aconteça fora daquele espaço se vulgarize de forma atroz e controversa… nas ruas, na comunicação social, nas famílias, na sociedade, nas coletividades…
1. Longe vão os tempos em que os ‘nossos’ representantes tinham qualidade humana, intelectual, social e cultural; onde havia educação no dizer e no ouvir; onde, mesmo discordando, o faziam com elevação de linguagem e mesmo de comportamento. Hoje vemos, continuamente, uns que falam e outros que tripudiam (com apartes, comentários ou barulhos); uns que, de microfone aberto falam (talvez seja mais gritam) e os outros – sobretudo se forem extra-grupo ideológico – desprezam o que seja dito; uns estão nas primeiras filas – quais arietes na luta – e os outros não passam de figurantes sem préstimo; uns que tentam marcar o ritmo da discussão e outros que se entretêm com outros afazeres… e todos são pagos de forma idêntica. Não está em causa a representatividade (numérica, política ou social), mas a eficiência de todos, onde boa parte não passa de uma espécie de ‘bois-mudos’…
2. Recentemente – numa data pretensamente simbólica, de que alguns se achavam donos e outros são menosprezados ostensivamente – deu-se um episódio que roçou o cúmulo da má-educação, tanto no conteúdo como na forma: um deputado, que foi até há breves dias líder do seu grupo parlamentar, considerou na sua real-gana, ser legítimo voltar as costas, enquanto o presidente do Parlamento discursava, considerando assim ter direito de discordar do assunto em tratamento. Mais do que não ter visto a condenação deste ato de falta de civilidade, o que custa é considerarem muitos dos comentaristas-jornaleiros acharem que isso é correto e até aceitável… Se um destes dias algum estudante fizer o mesmo ao professor que nada haverá, o exemplo veio da dita ‘casa da democracia’? Se por estes dias um entrevistado ou em declaração conjuntas não gostar do assunto poderá fazer o mesmo, voltar as costas ao tema e ao interlocutor? Diga-se: a presunção no mal feito foi de alto quilate!
3. Já estávamos habituados a ter de tratar com uns estarem a falar, sobrepondo-se aos outros – e sem ninguém perceber o que é dito – e ainda confrontados com apartes de má qualidade entre as intervenções, mas esta de termos de aguentar com este esdrúxulo modo de protesto, não, obrigado. Não é menos verdade que o Parlamento representa quem nós somos e os que lá estão saíram de entre o povo que os elegeu. Por isso, torna-se urgente que haja melhor critério na escolha e não seja só para preencher quotas – essa vergonhosa artimanha de fazer equivaler o que não presta, muitas das vezes – ou para colocar todos os lugares das listas ocupados com candidatos de medíocre qualidade. Talvez isto explique que cheguem ao Parlamento figurinhas de baixo relevo e de menor expressão social, cultural e mesmo política… O que não presta, torna-se aproveitável!
4. Cuide-se de não fazer ‘anjos’ sobrevoando as lides legislativas nem se faça do espaço das decisões comuns poiso para certos abutres defuntos noutras paragens. O Parlamento deve ser escola de civismo, onde quem discorda, respeita e de quem governa sabe que, muito em breve, poderá estar no lugar de ser mandado. As movimentações sociopolíticas tornam tudo vulnerável e quase falacioso. Há tiques que a oposição cura e ajuda a ser mais verdadeiro porque humilde e sincero!