A primeira vez que ouvi falar das Astúrias foi na escola, quando se abordava o tema da Reconquista Cristã1. Na altura, fiquei com uma ideia vaga da sua localização e importância. Só mais tarde ouvi falar de Nossa Senhora de Covadonga, assim como da beleza e imponência dos Picos da Europa. Em 1993, ano da minha ordenação sacerdotal, uns amigos falaram-me desta região com um tal encanto que me fiz à estrada e descobri o que estava longe de imaginar: um dos lugares mais encantadores que conheço. Gostei tanto que, desde a primeira, já lá fui dezenas de vezes e, de cada vez que vou, fico sempre com a sensação de se tratar da primeira. Já aí levei dezenas de familiares e amigos e todos me dizem sentir o mesmo. De facto, as Astúrias é um daqueles sítios onde se vai e se deseja voltar.
Nos passados dias 24, 25 e 26 de abril, por lá andei a orientar um grupo de sessenta paroquianos, numa viagem que todos apelidaram de fantástica e de que darei conta aos leitores na próxima segunda-feira, para fazer memória de uma experiência que, em nós, aproximou a retina e o coração. Antes disso, e para aguçar o apetite, passo a uma apresentação sumária deste território rico em história, identidade, cultura e gastronomia.
A região das Astúrias é uma comunidade autónoma do norte de Espanha, situada entre o Mar Cantábrico e a Cordilheira Cantábrica2, com mais de um milhão de habitantes, onde imperam paisagens verdes e montanhas escarpadas, onde vigora uma forte identidade cultural que a distingue pelo equilíbrio entre a natureza, a tradição e a modernidade. É, por isso mesmo, uma das regiões mais autênticas e genuínas de Espanha, “uma pequena Suíça, no norte da Península Ibérica”, como gosto de lhe chamar.
A sua capital é Oviedo, cidade elegante e histórica, com cerca de 225000 habitantes, famosa pelo centro histórico, pelas Igrejas (o destaque vai para a catedral e para o seu imponente e belíssimo retábulo) e pela qualidade de vida. Além de Oviedo, destacam-se as cidades de Gijón, a mais populosa (271000 habitantes), voltada para o mar e com forte tradição industrial e cultural; e a de Avilés (78000 habitantes), cidade que combina o património medieval com arquitetura contemporânea. É aqui que está localizado o Centro Cultural Internacional Oscar Niermeyer.
A natureza é um dos maiores e melhor cuidados símbolos da região das Astúrias. O destaque vai para os Picos da Europa, constituídos por montanhas imponentes, trilhos que conjugam dificuldade e beleza, e paisagens de cortar a respiração. Entre vales, rios3 e florestas, há pequenas aldeias onde se preservam tradições muito antigas e um modo de vida profundamente ligado à terra e à pastorícia. A transumância está ainda em vigor.
A cultura asturiana carateriza-se por tradições próprias, música popular, danças regionais e uma gastronomia muito apreciada. Um dos seus pratos mais conhecidos é a fabada asturiana, preparada com feijão branco grande (“fabes”), chouriço, morcela asturiana e lacón4; o pote asturiano, semelhante à fabada, mas com mais verduras e carnes de porco; a merluza a la sidra, pescada cozinhada com molho de sidra; o cachopo, dois bifes de vitela recheados com presunto e queijo, panados e fritos (um ícone moderno da gastronomia asturiana), chorizo a la sidra (chouriço cozinhado lentamente em sidra asturiana), tortos de maíz (discos de massa de milho fritos, servidos com ovos, picadillo5 ou queijo. Entre os doces, são de destacar o arroz com leite asturiano e os casadilles, doce frito ou assado com noz, açúcar e anis. Muito famoso é o queijo Cabrales, maturado em grutas dos Picos da Europa. Nas bebidas, o destaque vai para a sidra asturiana, um dos maiores símbolos da região. Destaca-se pela forma tradicional como é servida: vertida do alto para arejar a bebida.
Além da sua notável riqueza cultural, as Astúrias têm investido no turismo sustentável e na preservação ambiental. A combinação entre montanha e mar permite, num só dia, caminhar por trilhos naturais e visitar praias selvagens banhadas pelo Cantábrico. Por isso, torna-se difícil encontrar uma região onde, no mesmo dia, seja possível tantas e tão diversificadas experiências. A beleza natural, a grandeza do património edificado e a pureza dos seus ares são outros tantos motivos que fazem dela uma região encantadora e que faz de mim um dos seus apaixonados e frequentadores regulares.
1 Depois de a Península Ibérica ter sido ocupada pelos mouros, em 711, a Reconquista Cristã começou com a vitória dos cristãos, na batalha de Covadonga, por volta do ano 722. O líder dos cristãos, Pelayo reinou em Cangas de Onís, entre 718 e 737, ano da sua morte.
2 Esta região recebe o nome de principado por razões históricas, dado que o herdeiro da coroa espanhola possui o título nobiliárquico de Príncipe das Astúrias, estabelecido por D. João I de Castela, em 1388. Os prémios “Príncipe das Astúrias” (agora, “Princesa das Astúrias”) são dos mais prestigiados de Espanha e frequentemente comparados aos Nobel em áreas culturais, científicas e humanísticas. Distinguem pessoas de qualquer país que tenham dado contributos excecionais para a ciência, a cultura, o desporto, o humanismo ou a cooperação internacional. Foram criados em 1980, em Oviedo, ligados ao título tradicional do herdeiro da Coroa espanhola.
3 Os mais importantes e conhecidos são os rios Sella, Nalón, Narcea, Cares, Deva, Navia, Eo e Piloña.
4 Lacón é a pá de porco curada. Por ser um prato pesado, a fabada é mais aconselhada no inverno.
5 Assim se designa a carne temperada.