1 – São milhões os que se queixam de que nunca como hoje, o homem tem perdido valores, como os valores de saber distinguir o bem do mal. Na verdade, as virtudes humanas, esvaem-se assustadoramente, no tempo que passa.
A busca pelo mais fácil, pelos prazeres quotidianos, são a antítese da serenidade, do viver natural e com simplicidade, da calma e da verticalidade, a par da horizontalidade.
As facilidades da vida, também existem na vida espiritual, no caminho da fé, na vida de peregrinos a caminho de Deus. Pratica-se a religião com pressa e, tantas vezes, só na horizontal. O homem esquece que também existe o vertical da vida.
O homem vive em permanentes correrias. Não cozinha por falta de tempo, com qualidade e, certa alimentação, desagrada ao organismo, à reprodução de novas células, ao bater do coração e desagrada ao motor cerebral.
O homem troca a qualidade de vida, pelo que é oco: as pressas e certas doses de loucura, dominam-no. Atira para o último lugar, obrigações e deveres, pela pressa de bens materiais, mesmo que nem de tudo precise para viver harmoniosamente.
O homem raramente busca as virtudes ou as qualidades que recebeu/tem e que Deus lhas permite permanentemente. Mas a pressa e a loucura do SER, cegam-no, e fazem dele homem conflituoso no lar, na profissão e na sociedade em geral.
O homem substitui pai, mãe, irmãos e filhos, pela insensata preocupação de tudo ter de ser rápido, do faça-se já, e esquece que o tempo não lhe pertence e pode perdê-lo, uma vez que só Deus é dono do tempo.
O homem de hoje, o das pressas ou da loucura, não tem tempo de organizar a vida, de a pensar, de a pôr acertadamente em curso e muito menos tempo tem de apreciar e sentir o ar que respira e homenagear a Natureza que Deus lhe oferece diariamente.
O homem deve ser activo. Mas a acção excessiva, desorganizada ou insensata, a que busca apenas rapidez ou faça-se já. Não passa de uma acção que se torna inimiga do pensamento, inimiga do seu próprio ser.
2 – Um homem, que se auto-excluía da sociedade, que melhor se sentia vivendo “à margem de tudo”, passava todo o tempo do dia, numa ilha. Alimentava-se do que aparecia, descansava sob uma larga copa de árvore e rezava a Deus.
Um dia aconteceu um gigante tufão e um desportista das motas d’água, praticando o seu desporto favorito, fugia e apercebendo-se que o homem da ilha já nadava nas imensas águas, gritou-lhe: “homem, salte para a moto para se salvar”. O homem recusou e disse-lhe: “Deus virá salvar-me”. “Ele sabe que estou em perigo, por isso virá ter comigo”. E continuou a rezar e a nadar.
As águas subiam paulatinamente e minutos depois, roçou-lhe pelo corpo um fortíssimo tronco de árvore e o homem pensou: não me agarro à árvore, pois Deus há-de salvar-me. E continuou a rezar. Então aproxima-se dele um barco que andava à pesca e viram o homem a lutar com as águas do tufão. “Suba para o barco”, disse-lhe o Mestre. “Não, não subo, pois sei que Deus virá salvar-me”.
Minutos depois, a alma do homem da ilha, estava perante Deus. E o homem queixou-se então, dizendo a Deus que Ele tinha sido desapiedado dele e que o deixou morrer. “És mesmo tolo! – exclamou Deus. Desapiedado, Eu? Não te ajudei? Mandei-te uma moto de água, um trono de árvore, um barco e agora queixas-te de que nada fiz por ti? Não conheces os Meus sinais”?
O homem da ilha não entendia a Oração, Deus, e era um crente que carecia de visão mais perfeita e mais realista. É que as ajudas não estão somente fora, mas estão dentro do homem também. A Graça de Deus no interior do homem da ilha, existia com certeza. Só que nunca a soube ganhar ou interpretar.
A vida e Deus, tantas vezes dão a cada homem oportunidades fantásticas, mas não sabemos interpretá-las, não queremos interpretá-las ou não acreditamos que essas oportunidades são o remédio absoluto das nossas, tantas vezes, dores ou azares.
Ao homem da ilha, mandou Deus três formas de lhe salvar a vida. Três sinais. Acreditou somente nas rezas e não colaborou com o seu esforço, com a sua entrega física e, dessa forma, se libertar do tufão.
Há que estar atento: Deus está; fala ou fala-nos através dos outros ou das coisas e, enquanto o homem, na terra tiver vida e precisar de Deus… Ele nunca falha. Mas os tufões, na vida, podem ser bastantes. Há que reflectir.
(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990)