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Dia Mundial da Luta contra a Lepra: uma doença do passado ou um desafio atual?

A lepra é uma doença causada pela batéria Mycobacterium leprae que afeta a Humanidade há milénios. Transmite-se pessoa a pessoa por via respiratória, através da exposição próxima e prolongada (de vários meses) a pequenas partículas contaminadas. Não é uma doença de elevada contagiosidade, atingindo principalmente conviventes e contactos próximos.

Segundo a mais recente atualização dos Centre for Disease Control and Prevention e Organização Mundial da Saúde, no ano de 2025 foram notificados cerca de 250.000 casos a nível mundial, sendo o Brasil, Índia e Indonésia os países de maior incidência (>10.000 novos casos/ano), seguidos de Moçambique, Madagáscar, Etiópia, República Democrática do Congo, Somália, Nigéria, Tanzânia, Bangladesh, Sri Lanka, Nepal e Birmânia (1000-10.000 novos casos/ano). Nestas regiões, o contexto de pobreza, subnutrição, aglomeração habitacional e baixa escolaridade contribuem para a elevada endemicidade da doença. Crianças e adultos imunodeprimidos são mais suscetíveis à infeção.

Em Portugal, em meados do século XX, existiam várias centenas de casos reportados, justificando a criação do Hospital-Colónica Rovisco Pais, na Tocha. Este hospital tornou-se uma referência no tratamento, prevenção e estudo da lepra, cumprindo também funções sociais de asilo dos doentes. Com a erradicação da lepra por volta dos anos 70, esta Unidade foi transformada num Centro de Reabilitação, mantendo um museu que preserva o espólio médico e os testemunhos de quem ali viveu durante anos.

Presentemente, no nosso país, segundo dados do Instituto Ricardo Jorge, confirmaram-se 4 casos em 2024 e 4 casos em 2023, todos diagnosticados em imigrantes oriundos de países de elevada prevalência.

Após a infeção, a doença pode ter um período de incubação muito prolongado (em média 2-12 anos). A bactéria entra pelo aparelho respiratório e, por via sanguínea ou linfática, estabelece-se principalmente em células da pele e do sistema nervoso periférico, onde existem as melhores condições para a sua subsistência (baixa temperatura).

A apresentação clínica da doença é muito variável e depende da resposta imunitária do hospedeiro. Os principais sintomas são lesões cutâneas hipopigmentadas (claras) ou eritematosas (avermelhadas), indolores e com perda de sensibilidade tátil e térmica. Podem ser lesões únicas ou múltiplas, com bordos bem definidos. São também comuns sintomas neurológicos como a fraqueza muscular, parestesias (formigueiros), dormência. A atrofia muscular pode ocorrer nos casos de diagnóstico tardio.

A confirmação do diagnóstico implica uma biópsia das lesões e análise histológica e microbiológica, para identificação da bactéria e suscetibilidade aos fármacos mais indicados ao tratamento.

Existem vários antibióticos com atividade sobre Mycobacterium leprea, sendo o tratamento efetuado com dois ou três fármacos combinados, durante vários meses.

Em 1954 a Organização das Nações Unidas instituiu a comemoração do Dia Mundial da Lepra, em tributo a Mahatma Ghandi, um dos maiores defensores dos doentes com lepra, falecido em 30 de janeiro de 1948.

O diagnóstico e tratamento precoces da doença são fundamentais para prevenir as complicações tardias e mais graves da doença, sendo uma estratégia crucial para a erradicação da doença a nível mundial.

Na nossa realidade, nomeadamente ao nível dos Cuidados de Saúde Primários, devemos estar a alerta para os principais sintomas da doença, particularmente em imigrantes provenientes de zona de risco, promovendo o encaminhamento atempado para uma consulta de Infecciologia e/ou Dermatologia.

 

*Assistente Hospitalar Graduada de Infecciologia

ULS Braga

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Ana Catarina Guerra

30 janeiro 2026