Porque continuamos a precisar de heróis? Foi a partir desta inquietação que pensei a crónica de hoje, num mundo repleto de facilidades que outras gerações dificilmente poderiam imaginar, onde comunicamos em segundos, nos deslocamos com facilidade e vivemos ligados a um fluxo constante de informação. Ainda assim, este mundo expõe um mal-estar crescente, como se o conforto já não bastasse para dar sentido à vida. Muitos dos nossos leitores conhecem Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, que, no livro Em busca de sentido, escrito a partir da sua experiência nos campos de concentração, sintetizou esta ideia ao afirmar que “o ser humano não sofre tanto pela dor, mas pela falta de significado da dor”.
Assim se percebe que a necessidade de super-heróis não seja nova e atravesse a história desde a Antiguidade, quando surgiram figuras como Hércules, Aquiles ou Ulisses, heróis que concentravam numa só personagem aquilo que a comunidade desejava ser, mas não conseguia. O Super-Homem surge como continuação dessa narrativa antiga, agora em versão moderna, pois, apesar de mudarem os nomes e os cenários, a necessidade mantém-se. Por essa razão, os super-heróis fascinam-nos, porque respondem a essa sensação de esforço contínuo e de falta de sentido que atravessa a nossa experiência quotidiana. Talvez seja por isso que continuem a ocupar um lugar central no nosso imaginário.
O psicanalista francês Jacques Lacan lembrava que o ser humano nunca se sente totalmente completo e que tende a procurar fora aquilo que sente faltar dentro de si, ideia que sintetizou na conhecida afirmação de que “o desejo do homem é o desejo do Outro”. Procuramos, assim, modelos e figuras fortes porque nos ajudam a lidar com essa sensação de insuficiência que tantas vezes nos acompanha e que preferimos projetar em heróis, em vez de a enfrentar em nós próprios.
Esta ideia lacaniana foi rapidamente compreendida pelo cinema e pela cultura popular, em particular por Hollywood, que soube explorá-la com eficácia. Os super-heróis surgem como figuras seguras, decididas e capazes de agir sem hesitação, representando aquilo que gostaríamos de ser quando nos sentimos inseguros ou perdidos, funcionando menos como solução dos nossos problemas e mais como uma identificação segura. James Bond, o célebre 007, é um exemplo claro desse herói idealizado, à primeira vista competente, sedutor e eficaz, alguém que parece ter sempre tudo sob controlo, mas que, olhando com mais atenção, revela uma profunda solidão e incapacidade de criar relações duradouras.
Esta lógica estende-se também aos ídolos reais. Admiramos atletas, músicos ou figuras públicas como se fossem excecionais, até ao momento em que erram e caem, e o choque resulta da expectativa irreal que, entretanto, criámos. Na infância e na juventude, também eu tive os meus heróis, nomes que habitavam o imaginário com a força de verdadeiros super-heróis, como Yazalde, Cruyff ou Rivellino no futebol, ou Jimi Morrison dos Doors na música, e ainda Raul Solnado e Vasco Santana, figuras que admirávamos não por serem perfeitas, mas pela marca que deixavam, pelo talento e pela capacidade de nos fazerem sentir algo maior. Eram super-heróis não por serem invencíveis, mas porque despertavam admiração e ajudavam a dar forma aos nossos sonhos e referências.
Na minha experiência como professor, vejo como esta cultura influencia crianças e jovens. Como lembrava Heidegger, “vivemos, na maior parte do tempo, como toda a gente”, seguindo modelos e expectativas que raramente escolhemos de forma consciente. Muitos jovens crescem hoje expostos a narrativas que prometem sucesso rápido, visibilidade imediata e reconhecimento sem nada o justificar. Fabricam-se, assim, super-heróis de papel. Programas como o Big Brother e outros do mesmo género elevam pessoas comuns a heróis instantâneos, não pelo que fazem, mas pelo que mostram. O heroísmo deixa progressivamente de ser ético, pois valoriza-se menos o contributo e mais a aparência, num tempo em que o sucesso parece funcionar como novo superpoder.
Caros leitores, se pensarmos bem, onde encontramos hoje os verdadeiros heróis? São os profissionais que vivem no limite da responsabilidade e do risco, médicos e enfermeiros nos serviços de urgência, bombeiros que entram onde todos fogem, professores em contextos difíceis, forças de segurança, cuidadores informais e equipas de emergência. Não salvam o mundo em episódios televisivos, mas sustentam-no todos os dias, quase sempre sem ninguém dar por isso.
Estamos a terminar esta crónica com a ideia de que talvez inventemos super-heróis como forma de adiar a consciência dos nossos limites e aliviar o peso de sermos apenas humanos, sabendo, porém, que o desafio não está em eliminar a fragilidade, mas em aprender a conviver com ela. Fica, assim, a pergunta aos leitores, para reflexão de cada um:
- Será que continuamos a precisar de heróis porque ainda não aceitamos plenamente a nossa própria fragilidade?
*Professor de Filosofia