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Uma Igreja nas Catacumbas?

Eu julgo que enquanto houver exames nas escolas irá haver gente a rezar. Não sei o motivo desta convicção que até deve ter partido de algo que ouvi, mas está arraigada em mim. Quase tão enraizada como enraizado está, em tantas pessoas, um mito acerca da Igreja primitiva (neste caso ainda do primeiro século): devido a diversas profecias que falavam de um iminente fim do Mundo, que iria ser precedido de enorme violência, os cristãos viviam escondidos da sociedade e até chegaram a viver quase universalmente sob o solo.

Já tive a oportunidade de mencionar que os cristãos no primeiro século sofreram perseguições provindas de distintos quadrantes. Nos séculos seguintes tais perseguições incrementaram-se, mas, salvo casos raros, foram sempre pontuais, quer no tempo, quer no espaço. Também não é segredo nenhum que, na realidade, muitos cristãos desejaram viver em grutas – ascetas ermitas, comunidades que viviam em zonas com climas dos quais só se logravam proteger desse modo e outras em que tal forma de vida era a mais económica.

Também já teremos ouvido falar das catacumbas romanas (embora haja outras), onde, surgindo vestígios simbólicos do segundo século, podemos estimar, com toda a segurança, que eram usadas pelos cristãos no século anterior. Dito isto, as catacumbas nunca serviram como locais de habitação (embora em momentos de perseguições alguns cristãos as possam ter usado para se protegerem), mas sobretudo como locais de sepultamento, onde, por vezes, se celebravam eucaristias perto dos nichos dos mártires e refeições comemorativas junto aos recantos onde estavam os cadáveres dos familiares.

Fruto do indicado no parágrafo anterior, não se pode negar que tais catacumbas tenham marcado, de algum modo, o desenvolvimento dos ritos funerários cristãos, os rituais da liturgia, a veneração dos santos e a tradição da pintura de ícones da Igreja. De facto, partindo-se do valor e da bondade dado pelos cristãos à natureza humana, os restos mortais do defunto – que, como hoje, já se estimava que, de alguma forma, iriam voltar a reunir-se ao seu corpo, alma e espírito – eram esmeradamente cuidados.

As ditas catacumbas chegaram a ter quilómetros de extensão, diversos níveis de estratificação e a terem uma forte ligação a determinadas zonas limítrofes às cidades (devido à proibição de se as edificarem em zonas urbanas, exceto, por exemplo, em Alexandria) que, assim, lhes conferiram um particular relevo público, tornando os proprietários dos locais por onde se acediam às mesmas assaz proeminentes.

Como vemos, os primeiros cristãos não utilizavam, afora pontuais momentos de maior crise, as catacumbas como esconderijos, muito menos como habitações. Elas eram, isso sim, espaços de culto, orações e sepultamento comunitário conjunto. Se assim é, a ideia de que os cristãos primitivos formaram uma “Igreja das Catacumbas” escondida dos olhares das demais pessoas é totalmente falsa.

Pior: tal ideia tem sido usada para captar pessoas com menos formação e fragilidades de diversas ordens para aderirem a seitas que promovem o se viver escondido do mundo, abandonando os seus empregos, famílias e comunidades. Todavia, nenhuma destas práticas tem a ver com as catacumbas da Igreja cristã (primitiva ou não).

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

31 julho 2024