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Cuidado (também) com o «armamento» digital

Foram «dois amores que – surpreendidos pelo Sábio de Hipona – fundaram duas cidades». 

Trata-se da «cidade terrena», habitada pelos que se amam a si mesmos, buscando o poder. E da «cidade celeste», formada pelos que priorizam o amor a Deus, promovendo a paz.


 

Como filho espiritual de Santo Agostinho, o Papa Leão XIV também deposita a «magnífica humanidade» numa opção decisiva entre «duas cidades».

Ou aposta na construção de uma «nova torre de Babel» ou investe na «reconstrução de Jerusalém», devastada após o exílio babilónico (cf. Ne 1-2).


 

A «síndrome de Babel», a cidade que visa tocar os céus (Gén 11, 1-9), sinaliza a ambição desmedida do homem que prescinde de Deus. 

O resultado é a dispersão. «Quando uma cidade se edifica sobre o orgulho, a comunicação é interrompida, as línguas confundem-se e as pessoas deixam de se compreender».


 

Pelo contrário, a «reconstrução de Jerusalém» denota a possibilidade «de trabalharmos juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta o território da justiça e da fraternidade».

Que participação terão os cristãos nesta «reconstrução»? Acima de tudo, «orientando a ação para Deus, de modo que o pluralismo não se disperse na desordem, mas, pela prática da sinodalidade, se torne o lugar onde a humanidade reencontre os seus alicerces e o seu fim último».


 

A tecnologia «pode curar, conectar e educar». Mas também «pode dividir, descartar e gerar novas injustiças». 

Em si mesma, a tecnologia não é uma solução nem um bloqueio. Ela «tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam». 


 

A esta luz, «a escolha não é entre um “sim” ou um “não” à tecnologia, mas entre “edificar Babel” ou “reconstruir Jerusalém”». 

Incumbe-nos deliberar ante «um poder que pretende dominar sem limites e um povo que, na presença de Deus, intenta reerguer os pilares da convivência fraterna».


 

No balanceamento entre as «duas cidades», as vias digitais «são uma ajuda preciosa, requerendo, ao mesmo tempo, uma abordagem sóbria e vigilante». São múltiplas as oportunidades e volumosos os riscos. 

Se, por um lado, estes meios permitem obter resultados com facilidade e rapidez, por outro lado, expõem-nos à aparência de objetividade e ao perigo da simulação da própria comunicação.


 

Transformando a moldura da nossa vida, não espanta que «a revolução digital esteja igualmente a modificar a gramática dos conflitos». 

A guerra convencional é acompanhada por formas híbridas de beligerância: «ataques cibernéticos, manipulação da informação e automatização de decisões estratégicas». 


 

A opinião pública é cada vez mais «orientada por narrativas mediáticas de polarização, amplificadas por algoritmos que fomentam o confronto e a oposição».

Haja em vista que «o ciberespaço também se tornou um campo de batalha».


 

Daí que a «paz desarmada e desarmante» postule, além do «desarmamento da linguagem», um inteiro «desarmamento tecnológico».

Não existe algoritmo que «possa tornar uma guerra moralmente aceitável». Só com desarmamento digital será possível avançar para uma paz integral!

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

2 junho 2026