Faz bem subir ao monte por entre caminhos indefinidos, enfrentando dificuldades, em todo o caso abrigados do sol que pode fazer-se sentir, só ou acompanhados, passando por cheiros novos, sem poluição, e encontrar o silêncio que não se sente na cidade. Cada um se pode superar, reflectir na vida, nos projectos ainda indefinidos, naqueles que estão prontos a pôr-se em prática. Naturalmente, apesar dos benefícios para a saúde física e mental, e para a tomada de diferentes decisões, há quem se abstenha de o fazer ou se negue, por razões menores, a fazê-lo, agora e sistematicamente. Nas próximas linhas, destaco ainda outras vantagens e até necessidades de subir a um ponto alto, física ou religiosamente, mas também ética, cívica e politicamente falando.
Um atleta de maratona ou de outro desporto radical precisa da experiência para adquirir capacidades, testar-se e superar-se para atingir determinados objectivos nas provas futuras. Quem procura escutar a sua consciência não o consegue fazer no meio da confusão e é no recolhimento que encontra as condições para tal. Nos textos bíblicos, subir ao monte serve para contemplar experiências invulgares e grandiosas, receber inspiração e aconselhamento. Lembremo-nos do que aconteceu nos montes Sinai e Tabor, para referir só estes casos.
É do alto que se vê melhor, se avalia como de nenhum outro sítio a paisagem, a dimensão dum problema, a extensão das necessidades e dos estragos de uma tempestade ou outro fenómeno anómalo. Não é por acaso que se use um helicóptero para verificar a extensão dos danos duma qualquer catástrofe. É de lá que se vê a lonjura dos caminhos que as pessoas deixaram de poder percorrer após um incêndio ou uma inundação.
Em sentido figurado, é de cima do monte que se chega ao cerne das questões mais bicudas e se descobrem eventuais soluções, ainda que possam não ser logo definitivas. Na verdade, é de todo aconselhável fugir dos holofotes, das multidões, para descobrir e discernir sobre os problemas, exactamente o contrário do que, muitas vezes, vimos acontecer: as multidões de comícios, de estádios repletos que puxam pelos líderes a dizerem o que os associados e simpatizantes desejam, sabemos que nem sempre aquilo que é preciso ou prioritário, que é justo e equilibrado. E os líderes fracos, imaturos, a que alguém há dias chamava de “prostitutos”, prometem sem pensar com coerência, apenas para contentar as multidões sedentas de respostas que lhes satisfaçam o ego e os interesses pessoais ou clubistas.
É preciso voltar à montanha, à tranquilidade, à paz de espírito, à coerência de argumentos, à ética, e ajuizar com respeito e equidade, o que se deve ou não fazer. Isto vale para cada um individualmente, como vale para os nossos líderes, sejam eles civis, religiosos ou políticos. Moisés foi buscar orientações ao cimo do monte, como antes a Abraão foi lá testada a sua fidelidade, comprovada a sua fé e validada a sua capacidade para liderar um povo que seria tão numeroso como as areias do mar.
Quem hoje procura implementar nas suas organizações o último grito da tecnologia precisa de pensar para além dos seus interesses pessoais sem se alhearem ao que se passará a seguir: mais pobreza, insensibilidade social, pessoas dominadas por inteligências perigosas. No limite, no futuro, quem nos cumprimentará à entrada das nossas empresas, quantos colegas teremos de carne e osso, quem decidirá sobre a paz e a guerra, quem nos dará um abraço de verdade, com sentimento? Os nossos investigadores, os nossos empresários e os nossos políticos têm de subir ao monte para reflectirem sobre o que a Humanidade realmente precisa e deseja, despojados de vaidades, protagonismo e interesses pessoais ou de grupo.