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Se o velho Attenborough conhecesse Trás-os-Montes

Fez 100 anos, o grande David Attenborough). E ainda no activo… Foi a ele e a outro grande naturalista e divulgador, o espanhol Felix Rodríguez de la Fuente que devemos, tantos de nós, o nosso precoce e indefectível amor pela Natureza, a nossa posição política conservacionista ecologista não esquerdista, a nossa constante atenção à acelerada perda de biodiversidade, à extinção continuada de milhares de espécies, à estúpida destruição dos vales dos mais belos rios com barragens; ao semear das serras com “parques” eólicos; à agora tão ameaçadora proliferação de encostas e de campos ocupados por imensos latifúndios de painéis solares (os quais deviam era estar, em menor quantidade, nos telhados ou jardins dos imóveis)… Torga, que nem metade dos recantos de Trás-os-Montes conhecia (como eu, e poucos, conhecemos) jurava bem, que essas terras eram o “reino maravilhoso”. Se Attenborough tivesse prestado à Ibéria metade da atenção que bem prestou, p. ex., à bela e vasta África, decerto que teríamos hoje um Portugal bem menos eucaliptizado e queimado; e menos cheio de olivais e amendoais intensivos; onde a tão espetacular fauna (e avifauna) não estivessem tão ameaçadas. Inclusive por caros e desnecessários TGVs e novos aeroportos impactantes.

Os muitos que gostam de Natureza, tranquilizam-se ao ver na TV “os bichos” todos…)Realizados com a melhor das intenções, os preciosos e notáveis documentários que passam nos canais Discovery, Odisseia, NGS, RTP 2 (e feitos por La Fuente, Attenborough, von Lawick e seus actuais “alunos”) podem causar em muitos, o efeito negativo de tranquilizar as pessoas; de as iludir no sentido de que “tudo vai bem” a respeito de conservação mundial da Natureza, Paisagem e Biodiversidade. Quando na realidade o que se passa é exactamente o contrário.

A desflorestação e a extinção de espécies é cada vez mais acelerada…). Dentro de poucas décadas, ao ritmo a que o desastre prossegue, só indo ao Zoo é que se conseguirão ver os últimos leões, leopardos, elefantes, rinocerontes, búfalos, girafas, antílopes, zebras, macacos (pois a África Negra continua com a sua “explosão-exportação” demográfica e “necessita” das savanas para plantar cereais). As selvas, essas dão lugar a plantações de cacau, borracha, café, etc. As suas madeiras são “preciosas” e a selva é roída no Zaire-Congo, C. do Marfim, Nigéria… Similar é a situação no Brasil, Colômbia, Indonésia, Índia, etc.

Há que escolher, entre Natureza-paisagem-biodiversidade ou Inteligência Artificial). Se a Internet e a Eletrónica já exigem grandes produções de electricidade… então agora, o “último grito”, a dita “Inteligência Artificial”, se apesar de a multidão das suas consequências nefastas fôr mesmo avançar, então quase não vai sobrar Paisagem que não esteja infestada de barragens, ventoinhas, campos de negros painéis, linhas de muita alta tensão, minas de lítio…

Nem os vales do Tua, Sabor e Douro (médio e superior) escapam às ignaras e gulosas ameaças). Infelizmente, o governo actual parece ter aprovado a “barragem das Olas”, perto de Vila Flor, inundando zonas de sobro e de fragas graníticas; as quais se integravam num conjunto paisagístico bem mais vasto, no triângulo das serras do Faro-Passos-Bornes. As ameaças de intensa prospecção mineira a sul da dita serra dos Passos (Mirandela) continuam. E agora é o próprio Parque do Douro Internacional…

Num “país civilizado”, alta tensão, ventoinhas eólicas e painéis solares, dentro dum Parque Natural?!). Pois é o que, lamentavelmente a empresa estrangeira Engie vem propor para vários locais do monumental (e protegido…) vale do Douro. A ideia é ganhar mais dinheiro (mas destruindo a Paisagem e a Biodivercidade…) no Parque do Douro Internacional; junto às já existentes barragens de Picote (em Miranda), Bemposta (em Mogadouro), de Foz-Tua (do lado de Penedono); e ainda em Carviçais (Moncorvo). Seria o início da dissolução da projectada Reserva Mundial da Biosfera (que se estende também às provs. espanholas de Zamora e Salamanca). O movimento Terra de Miranda diz que se trata de “um saque”.

Doces nuances de linguagem). Para cativar os desprevenidos e aqueles que quando olham para as coisas só vêem cifrões, as empresas falam de “aproveitamentos”, sempre que criam uma nova barragem. E agora, de “hibridização”, quando ao lado da impactante barragem nascem impactantes eólicas, linhas de alta tensão ou campos de painéis solares. A própria palavra “impacto” (da raíz latina “impactu”) tem sido adocicada num errado e pseudo-saxónico neologismo: “impacte”…

Eduardo Tomás Alves

Eduardo Tomás Alves

2 junho 2026