É melhor fazer o que é útil, ou fazer o que é correto? Eis a pergunta central do livro biográfico sobre Igino Giordani1 que recentemente li. Embora o seu papel na afirmação do movimento católico dos Focolares possa ser aquele pelo qual alguns melhor o conhecem, é o seu papel cívico e político o que mais gostaria de destacar neste homem (1894-1980) cuja vida permanece tragicamente atual e desafiante. Inúmeras vezes posto à prova, Igino nunca vacilou na sua resposta: o melhor é mesmo fazer o que é correto. E o correto é tudo aquilo que nos encaminha para o verdadeiro amor ao próximo. Fácil de concretizar? Não. A primeira ideia que retenho do livro é por isso a de um convite ao desconforto. Porquê? Porque a ação e o pensamento de Igino fazem dele um homem paradoxalmente singular e contemporâneo, ou seja, fazem-no único e simultaneamente um exemplo acessível. Daí o desconforto, já que não podemos dizer “ah, Igino estava noutro patamar, não era como nós”. Não o podemos dizer. Pelo contrário. Diante de nós está um homem que viveu numa Itália profundamente instável, marcada pela ascensão do fascismo e do ultra-nacionalismo, por duas guerras mundiais e a seguir, pela exigente reconstrução económica, social e política num quadro de democracia que não estava garantida. Igino atravessou tudo isso não ao lado, mas por dentro: escreveu com dureza contra o fascismo; denunciou o neopaganismo de Mussolini, ele sim apresentando-se como um eleito predestinado a recuperar a glória da Roma Imperial. Não espanta por isso que Igino tenha sido perseguido, vigiado, preso, pagando um elevado preço pela fidelidade à sua consciência, pela sua coragem política em manter-se firme aos valores do cristianismo e de uma ética humanista que qualquer pessoa reconhece como defensável mesmo não sendo crente.
Igino foi também um homem que intuiu a importância da doutrina social da Igreja, uma Igreja comprometida com os que mais sofrem, os que vivem nas margens, os invisíveis, os injustiçados. Ora, pergunto, foi o cenário em que Igino viveu muito diferente daquele em que vivemos? Não estamos hoje rodeados por novas guerras, radicalismos, medos, instabilidade social, ressurgimento de discursos fascistas e até blasfemos? Não temos um líder americano que patrocina o descerrar de uma estátua sua, colossal e dourada? Não assistimos à rejeição dos imigrantes e dos refugiados, à sua desumanização que os coloca ora como ameaças à nossa cultura, ora como meros instrumentos económicos? Não assistimos a novas formas de escravatura, de exploração laboral, de objetificação do trabalhador? São perguntas retóricas, porque sabemos bem quais as respostas. Digamos que não somos originais, nem na invenção da nossa desgraça, nem nas tentativas do nosso resgate.
Uma das grandes razões para lermos este livro está pois na atualidade da ação cívica e política de Igino Giordani, que nos mostrou que a vida pública não tem de ser e não pode ser um lugar de silêncio moral e de cumplicidades a bem do que nos é mais útil. Pelo contrário, tem de ser um espaço público para expor com coragem tudo aquilo que degrada o ser humano, e todo aquele que lhe mente e o oprime. Num tempo em que tantas vezes se aceita que a política vive inevitavelmente de acomodações, de cinismos e de pequenos oportunismos, Igino lembra-nos que a intervenção cívica pode e deve ser exigente, sem ser moralista. Não é uma questão do “eu sou bom e os outros são maus”. É uma questão de usar convicções profundas como os pilares da ponte que se constrói em direção ao Outro, até chegar ao seu coração.
Um dos aspetos mais belos da vida Igino está por isso nessa capacidade de transformar a firmeza num alicerce de pontes para o diálogo.
1 Igino Giordani – Um Herói Desarmado, escrito por Alberto Lo Presti, traduzido por José Maia e editado em Portugal em 2026 por Cidade Nova, com impressão do Diário do Minho.