Nesta hora negra para a história da humanidade, quero expressar a minha total e absoluta solidariedade para com o povo ucraniano, que está a ser alvo de uma agressão a todos os títulos condenável e criminosa. Muito tem sofrido o povo da Ucrânia ao longo da sua heróica e honrada história! E quando pensávamos que esta extraordinária nação tinha entrado definitivamente numa época de prosperidade e de paz, tanto mais que já fazia parte do grande concerto das nações civilizadas, isto é, daquelas onde a soberania pertence ao povo e os seus governos se pautam pelos valores da democracia política, económica, cultural e religiosa, eis que mais uma vez é avassalada por um poder discricionário, cobarde e sanguinário.
Nunca pensei na minha consciência de homem livre assistir ao esmagamento de uma jovem democracia pela monstruosa máquina de guerra russa. Nunca pensei. Também nunca pensei que o mundo ocidental se tivesse deixado burlar por um caudilho que, ao longo dos últimos anos, preparou metódica e friamente a aniquilação de uma pátria livre em pleno continente europeu. Esse projeto começou a ganhar forma quando Putin submeteu as regiões anti-russas da Tchetchénia (década de 90 – meio milhão de vítimas entre mortos e deslocados), apoiou as pró-russas da Ossétia e Abcásia (repúblicas separatistas da Geórgia – 2008), quando invadiu a Crimeia ucraniana (2014), e quando, finalmente, fomentou o separatismo do Donbass (região ucraniana que faz fronteira com a Rússia).
E enquanto Putin gizava este sinistro plano de reconstituição da velha União Soviética, o mundo, particularmente o ocidental, impávido e sereno, assistia às grandes paradas militares do Kremlin, ao Mundial de Futebol (2018) e ao campeonato mundial de Fórmula 1 (26 de setembro de 2021). Uma vergonha! Esta postura de Putin lembra os tiranos da Antiguidade que esmagavam os povos invadidos debaixo dos seus sanguinários exércitos e depois iludiam-nos com espetáculos majestáticos, festas, jogos...
Que adianta apiedarmo-nos da Ucrânia se estão a morrer soldados e milicianos nacionalistas, se milhares de famílias são obrigadas a um êxodo massivo (como se estivéssemos a viver novamente o pesadelo da II Grande Guerra), se as infraestruturas do país estão a ser destruídas, se o poder legal e livremente instituído pode vir a ser derrubado de modo brutal e ilegítimo, se o povo é obrigado a procurar refúgio nos abrigos subterrâneos, e se um menino diz para as televisões, com lágrimas nos olhos, que não quer morrer? Que adianta?
Putin é um líder em contraciclo com o processo histórico contemporâneo, que impede que os povos e as suas nações saiam do complexo geopolítico que, a partir de 1921, formou a União Soviética comunista. É um líder arcaico, de visão limitada e extemporânea, que alimenta um ódio irracional e injustificado à Nato e ao ocidente, que vê como uma ameaça do seu despótico e discricionário regime. Melhor diria que é uma espécie de supermarionetista que, ante a impotência do mundo, coloca, a seu bel-prazer, títeres em todos os países e regiões de influência russa e pretende agora colocar mais um em Kiev!
O povo mártir da Ucrânia, na sua história moderna, sofreu genocídios associados à sovietização (21-23), à II Grande Guerra (5 a 8 milhões de vítimas), ao Holodomor imposto por Stalin (década de 30 – 7 milhões de vítimas) e está a sofrer mais uma agressão em pleno séc. XXI! Mas são nas grandes provações coletivas que se forjam as grandes almas pátrias! E a Ucrânia tem uma alma do tamanho do mundo, uma alma que, neste momento, abraça todos os continentes e penetra profundamente na consciência de todos os cidadãos autenticamente justos e livres. Putin pode-se ter equivocado quanto à capacidade de resistência do povo ucraniano, porque enquanto o soldado russo luta por dever de ofício, o soldado ucraniano luta por amor à pátria. E se um é mercenário e serve um tirano, o outro é herói e serve uma pátria!
Deus queira que Putin não faça à Ucrânia o mesmo que fez às suas “repúblicas” satélites, e que a sua ação condenável sirva de lição para o povo russo, que não merece ser governado por uma plutocracia impiedosa e belicista, que é a vergonha da comunidade internacional, até porque também está a ser preso nas ruas, tem a sua comunicação social amordaçada e vai assistindo à publicação de leis execráveis, como aquela que impede as mães de dizerem que o seu filho morreu na guerra.
Que as novas gerações russas saibam superar este período negro da sua história e façam da Rússia de León Tolstói, Dostoievsky, Antón Tchekhov… um legítimo membro do concerto das nações civilizadas. O mundo precisa de uma Rússia livre!
Autor: Fernando Pinheiro
Também sou ucraniano. Viva a Ucrânia!
DM
27 fevereiro 2022