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Servir pessoas

1. «O serviço nunca é ideológico, dado que não servimos ideias, mas pessoas», afirma o Papa Francisco na sua mensagem para o Dia Mundial do Doente, que se celebra em 11 de fevereiro.

Naquela mensagem o Papa chama particularmente a atenção para o doente e para as pessoas que o assistem.

2. O doente é uma Pessoa. Mais fragilizada, mais dependente, mais necessitada da ajuda dos outros, mas uma Pessoa cuja dignidade deve ser respeitada. Sempre.

Não há doentes ricos ou pobres; deste ou daquele partido; deste ou daquele credo religioso. Há doentes, seres humanos, todos eles com direito a serem clinicamente assistidos com a perfeição desejável. Um doente não deve ser abandonado.

3. É preciso saber visitar um doente. A visita não é para o massacrar, para violar a sua privacidade, para lhe fazer perguntas inconvenientes, para o assustar com a gravidade da doença, para lhe dar conselhos inoportunos, para o pressionar no sentido de que faça isto ou aquilo.

Visitar um doente não é pretender ser médico sem bata branca e «receitar» o que lhe vem à cabeça.

A visita deve ajudar e não complicar. Faz o que deve: levar umas palavrinhas de conforto; desanuviar o ambiente; contar uma boa anedota; e, se for caso disso e não prejudicar, deixar um miminho. Mas quem visita não deve exercer funções ou competências que não tem.

Que a visita não imite o comportamento da esposa e dos amigos de Job que, em vez de o acompanhar na sua desventura, o acusam, aumentando nele solidão e desorientamento.

4. A visita a um doente dura o tempo necessário: nem mais, nem menos. É preciso saber disponibilizar-se para ir ter com o doente, sacudir a preguiça e o comodismo, mas também é preciso saber ir embora.

Que a visita, inicialmente propiciadora de alegria, não passe a ser incomodativa.

Tanto é obra de misericórdia estar com doente como deixá-lo em paz.

5. O cuidado dos doentes exige dos poderes públicos que, na gestão dos dinheiros, atribuam à saúde a importância que merece.

É fácil tecer loas ao Serviço Nacional de Saúde. E dotá-lo dos meios necessários para que cumpra a sua missão?

É um facto andarmos a formar bons profissionais de saúde. E damos-lhes as condições necessárias para que se possam realizar e servir cada vez melhor?

Não deixa de ser preocupante o número de bons profissionais emigrados. Conscientes das suas responsabilidades, os governantes não podem deixar de se interrogar.

Não há dinheiros públicos que podem ter melhor destino? Na sua gestão tem-se utilizado a mais aconselhável escala de prioridades? A saúde dos cidadãos, a alimentação, as condições de habitabilidade, a educação para todos não deverão ocupar os primeiros lugares? A escravatura à ideologia não estará a ser posta acima do verdadeiro serviço às pessoas, de todas as pessoas?

Transcrevo da mensagem do Papa: «A atual pandemia colocou em evidência tantas insuficiências dos sistemas sanitários e carências na assistência às pessoas doentes. Viu-se que, aos idosos, aos mais frágeis e vulneráveis, nem sempre é garantido o acesso aos cuidados médicos, ou não o é sempre de forma equitativa. Isto depende das opções políticas, do modo de administrar os recursos e do empenho de quantos revestem funções de responsabilidade. O investimento de recursos nos cuidados e assistência das pessoas doentes é uma prioridade ditada pelo princípio de que a saúde é um bem comum primário».

6. Precisamos de ser cidadãos muito atentos e interventivos. Há silêncios que podem significar indiferença e cumplicidade. Há coisas de interesse mais que secundário a desviarem-nos do essencial.

«Uma sociedade é tanto mais humana quanto melhor souber cuidar dos seus membros frágeis e atribulados e o fizer com uma eficiência animada por amor fraterno. Tendamos para esta meta, procurando que ninguém fique sozinho, nem se sinta excluído e abandonado», lembra também o Papa.


Autor: Silva Araújo
DM

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28 janeiro 2021