Aproximando-se as eleições de 6 de Outubro, gostaríamos de chamar a atenção para os que necessitam de cuidados continuados. Há enormes carências que urge resolver.
O caso concreto que hoje para aqui trago é o da Leonor Patrão, das Marinhas, em Esposende, que há 56 anos, vítima de acidente de trabalho numa saibreira, ficou paraplégica, de forma que nem numa cadeira ou sofá conseguia estar sentada. Sempre deitada e há anos algaliada.
Pouco antes da Páscoa deste ano, depois de vários avisos feitos ao enfermeiro que a acompanhava em casa da irmã Lurdes, que por ela vela e cuida há 40 anos, como cuidou dos pais de ambas, teve que ser internada em Barcelos, com feridas de tal maneira profundas e graves nas nádegas que esteve internada até ao dia 17 de Agosto. Nesse tempo, foi levada 3 vezes até ao Hospital de Braga para intervenções aos rins.
Nesse sábado, de surpresa, pelas 15 horas, telefonam à irmã a dizer que, às 16 horas, estaria uma ambulância no hospital de Barcelos para levar a Leonor para os Cuidados Continuados de Melgaço. Avisada tão em cima da hora, e com um compromisso inadiável, não a pôde acompanhar. E questionava-se: «como podem mandar minha irmã para tão longe, ela que ainda não está totalmente curada das feridas, sendo que tem de fazer viagens tão longas para vir ao hospital e regressar para tão longe, o que só pode agravar a situação?».
Mas não houve nada a fazer.
Na terça-feira, 20 de Agosto, pude visitar a Leonor. Estava banhada em lágrimas. Não aguentava o afastamento da família, pois, apesar de todas as limitações de saúde, sempre a acarinharam com ternura inexcedível. Sozinha, tão longe, a mais de 130 quilómetros, sem transportes directos que permitam ir e vir no mesmo dia, como ia ter um mínimo de carinhos que todos ambicionamos e mais apreciamos em momentos de tão grande e forte debilidade?
Pior ainda, a irmã Lurdes que, nestes 40 anos, nunca teve férias, para não a deixar sozinha, e que aceitou a modesta casa dos pais como parca recompensa pela obrigação de tomar conta deles e da irmã paraplégica, vê-se agora confrontada com uma legislação iníqua que a obriga a custear os 980 euros mensais que a Segurança Social lhe exige pelo internamento nos cuidados continuados.
A Leonor tem uma pensão de invalidez de 320 euros! Está na situação de debilidade e deficiência física enorme, há 56 anos. Tem sobrevivido graças aos cuidados e carinhos da irmã. E agora, só porque, fruto do trabalho dela e do marido, conseguiram uma pequena fábrica familiar em que trabalham apenas ela e o marido, e de onde retiram um magro vencimento para o próprio sustento e as inevitáveis despesas, tendo que pôr ainda do dinheiro deles para poderem cuidar da irmã, têm que completar a pensão de invalidez e garantir os 980 euros?! É uma imposição incompreensível.
Se eles deixassem a Leonor na imundície e a desprezassem, alguém chamaria a Segurança Social para garantir um rendimento mínimo e, quiçá, uma casa, como acontece com certas pessoas que só sabem estar ao sol, sem trabalhar. Porque a irmã e o cunhado se abalançaram à vida e, a muito custo, com enormíssimos sacrifícios pessoais, conseguiram um pequeno pecúlio, têm que completar o custo do internamento nos cuidados continuados?
Se fosse possível cuidar em casa, a irmã tomava conta, apesar de tudo, como o faz há 40 anos. Sendo que tem de estar num centro especializado para poder ter os cuidados médicos e de enfermagem necessários, que não é possível oferecer em casa, não é isto um cuidado de saúde indispensável, que o estado deve garantir, suportando as despesas? Onde está a saúde para todos, sobretudo para quem mais precisa?
Alertadas pessoas responsáveis para a situação de colocação da Leonor num local a mais de 130 quilómetros do Hospital e do agravamento que as viagens podem causar nas feridas ainda por curar, esquivam-se, dizem que não sabiam, que é impossível ter acontecido tal situação, etc. Há, agora, a promessa de que a primeira vaga mais perto do Hospital de Barcelos será para ela, como já o devia ter sido quando a mandaram para os cuidados continuados.
No meio de tanta amargura pela distância da família, a Leonor tem-se animado algo com o carinho recebido da irmã e sobrinhos, e de algumas pessoas de Melgaço que, conhecedoras da situação, a têm visitado e confortado. E o pessoal dos Cuidados Continuados até já conseguiu levá-la, deitada num cadeirão, a estar presente na eucaristia lá celebrada e na festinha que se lhe seguiu, onde ela cantou algumas das suas canções preferidas.
Autor: Carlos Nuno Vaz