1. Na sua mensagem para o LVI Dia Mundial das Comunicações Sociais o Papa Francisco convida a fixarmos a atenção no verbo «escutar», que «é decisivo na gramática da comunicação e condição para um autêntico diálogo».
Dialogar, recordo, é o direito de falar e o dever de ouvir.
A escuta, diz o Papa, «continua essencial para a comunicação humana». «É uma dimensão do amor».
2. Estou persuadido de que escutar é mais do que ouvir. É prestar atenção ao que ouvimos. E, escreve o Papa, «só prestando atenção a quem ouvimos, àquilo que ouvimos e ao modo como ouvimos é que podemos crescer na arte de comunicar, cujo cerne não é uma teoria nem uma técnica, mas a «capacidade do coração que torna possível a proximidade».
«Ouvidos, acrescenta, temo-los todos; mas muitas vezes mesmo quem possui um ouvido perfeito não consegue escutar o outro. Pois existe uma surdez interior, pior do que a física.
De facto, a escuta não tem a ver apenas com o sentido do ouvido, mas com a pessoa toda.
A verdadeira sede da escuta é o coração.»
3. Fala-se muito mas escuta-se pouco. Chama-se bom comunicador a quem, às vezes, não passa de um grande palrador.
Cito a mensagem do Papa: «Em muitos diálogos, efetivamente não comunicamos; estamos simplesmente à espera que o outro acabe de falar para impor o nosso ponto de vista.
Nestas situações, como observa o filósofo Abraham Kaplan, o diálogo não passa de duólogo, ou seja um monólogo a duas vozes».
4. A escuta faz parte da boa atividade jornalística.
Volto à mensagem: «Não se comunica se primeiro não se escutou, nem se faz bom jornalismo sem a capacidade de escutar.
Para fornecer uma informação sólida, equilibrada e completa, é necessário ter escutado prolongadamente.
Para narrar um acontecimento ou descrever uma realidade numa reportagem é essencial ter sabido escutar, prontos mesmo a mudar de ideia, a modificar as próprias hipóteses iniciais.
Com efeito, só se sairmos do monólogo é que se pode chegar àquela concordância de vozes que é garantia duma verdadeira comunicação.
Ouvir várias fontes, ‘não parar na primeira locanda’ – como ensinam os especialistas do ofício – garante credibilidade e seriedade à informação que transmitimos».
E mais adiante:
«A capacidade de escutar a sociedade é ainda mais preciosa neste tempo ferido pela longa pandemia. A grande desconfiança que anteriormente se foi acumulando relativamente à ‘informação oficial’ causou também uma espécie de «info-demia» dentro da qual é cada vez mais difícil tornar credível e transparente o mundo da informação.
É preciso inclinar o ouvido e escutar em profundidade, sobretudo o mal-estar social agravado pelo abrandamento ou cessação de muitas atividades económicas».
5. «Também na Igreja (continuo a citar o Papa) há grande necessidade de escutar e de nos escutarmos». «Na ação pastoral, a obra mais importante é o ’apostolado do ouvido’. Devemos escutar, antes de falar, como exorta o apóstolo Tiago.
Oferecer gratuitamente um pouco do próprio tempo para escutar as pessoas é o primeiro gesto de caridade».
O processo sinodal em curso exige a escuta mútua. «Rezemos, escreve o Papa, para que seja uma grande ocasião de escuta recíproca. Com efeito, a comunhão não é o resultado de estratégias e programas, mas edifica-se na escuta mútua entre irmãos e irmãs.
Como num coro, a unidade requer, não a uniformidade, a monotonia, mas a pluralidade e variedade das vozes, a polifonia.
Ao mesmo tempo, cada voz do coro canta escutando as outras vozes na sua relação com a harmonia do conjunto.
Esta harmonia é concebida pelo compositor, mas a sua realização depende da sinfonia de todas e cada uma das vozes.
Cientes de participar numa comunhão que nos precede e inclui, possamos descobrir uma Igreja sinfónica, na qual cada um é capaz de cantar com a própria voz, acolhendo como dom as dos outros, para manifestar a harmonia do conjunto que o Espírito Santo compõe».
Autor: Silva Araújo