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Quando apostamos a sério nos Cuidados Continuados?

Falando do estado da saúde em Portugal, quase tudo se centra no número de consultas, de intervenções cirúrgicas, tempos de espera para consultas e operações, número de camas disponíveis para acomodar condignamente os doentes, funcionamento e tempos de espera nas urgências, mas quase nada de algo tão importante como os cuidados continuados.

Partindo da experiência que tive com familiares meus, posso constatar que, nos últimos 12 anos, assisti ao falecimento de dois tios sacerdotes, com 96 e 92 anos, que praticamente não precisaram de internamento hospitalar e cujos cuidados de saúde normais puderam ser prestados em casa, permitindo-lhes, e a nós, um ambiente de família que muito os sensibilizou e ajudou a preparar para o grande momento do encontro com o Pai. Mais recentemente, com minha mãe, já tivemos que recorrer mais ao hospital, primeiro o público, e depois o privado, para lhe podermos proporcionar a companhia que, para ela e para nós, era o remédio essencial. Só assim se explica que, apesar das limitações físicas causadas pela falta de saúde, nunca lhe tenhamos escutado um verdadeiro lamento, pois se sentia querida, acompanhada e estimada.

Ao ler no dia 25, no jornal 'El País', o testemunho de uma senhora japonesa, investigadora em neurologia, a viver em Nova Iorque e com os pais na Flórida, que dizer aos seres queridos que lhes queremos bem, que os amamos, isso os estimula cerebralmente no melhor sentido e os revitaliza, compreendi aquilo que se tinha passado com meus tios e sobretudo com minha mãe. Sobretudo a esta, repetia-lhe frequentemente e do fundo do coração: 'Mamã, gosto muito de ti!'. E via que os seus olhos brilhavam, e as limitações físicas não contavam quase nada. No fim de tarde do que havia de ser o dia/noite da sua morte, para uma simples consulta de rotina no Hospital Privado de Braga/Centro, foi acompanhada pelos 3 filhos que com ela moravam habitualmente. Durante a madrugada, em casa, rodeada pelos filhos, partiu serena, pacificada e agradecida, deixando-nos pacificados e agradecidos.

Sei o que podem ser cuidados continuados quando há condições para que possam ser prestados em casa, tendo como suporte a ajuda da enfermagem e médica a que recorrer com rapidez, se necessário, e sei o que podem ser os cuidados continuados numa unidade específica para os mesmos, mas localizada a mais de 130 quilómetros da casa familiar do doente, e os cuidados prestados em casa própria a mais de 120 quilómetros do Hospital de referência e a 30 do Centro de Saúde. E é a partir destes dois casos concretos, que acompanhei ultimamente, num caso, e ainda acompanho, no outro, que queria tecer algumas considerações:

1.ª – É profundamente desumano enviar um doente para cuidados continuados a mais de 120, 130 e até 170 quilómetros de distância da casa familiar, se, para mais, não for possível fazer qualquer visita utilizando transportes públicos. Afastar um doente do meio familiar, precisamente quando mais precisa de carinho e apoio familiar, é profundamente atroz e desumano.

2.ª – Manter em casa um doente a precisar de cuidados continuados, quando há uma Unidade de Cuidados Continuados bem perto, justificando com falta de vaga, prometendo, porém, acompanhamento próximo de médico e de enfermagem, mas verificar, na prática, que tal não acontece, deixando os familiares numa angústia crescente, pois nem prestam no hospital os cuidados necessários, nem fazem em casa o acompanhamento devido e necessário, é também desumano. Se, como no caso em apreço, deixam o doente sem sonda para ser alimentado e hidratado, durante 6 dias, e depois lhe ministram soro subcutâneo que, por descuido de quem o colocou, se derrama pela perna; se, levado ao Centro de Saúde, e chamada a tenção para factores a exigirem internamento hospitalar, o recusam, levando a família a ter de recorrer à hospitalização privada, paga à sua custa, é algo de inqualificável.

E custa enfrentar o diagnóstico médico: 'este paciente está profundamente desnutrido, desidratado e ainda com infecção brônquica grave', a tal para que apontavam os familiares, mas que, no centro de saúde, diziam não existir e não justificar a ida ao hospital de referência. Para não falar de outras maleitas não detectadas e tratadas na devida altura. Apesar de todos os cuidados, o desenlace foi a morte ao fim de 3 semanas de internamento.

As pessoas idosas não podem ser abandonadas à sua sorte, como se fossem mais empecilho para o sistema de saúde do que seres humanos que mais atenção e carinho merecem. Se os principais responsáveis tivessem de lidar com casos semelhantes na sua família, de certeza que não diziam que a saúde está melhor. De certeza que redefiniriam as prioridades e lhes dariam muita mais atenção. Um dia lá chegarão e poderão ter que provar do mesmo fel. Mas isso não resolve o problema.

Urge mesmo olhar de outra forma para os Cuidados Continuados. Não podemos deixar desamparados os idosos e suas famílias.


Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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28 setembro 2019