As precauções fundamentais neste período de pandemia são conhecidas: permanecer em casa, assim evitando contactos sociais que não sejam imprescindíveis, lavar as mãos, etc. O cuidado com a saúde física é a prioridade. Mas há outras cautelas a ter. Uma delas diz respeito ao modo como cada um deverá lidar com a informação. As regras não serão muitas, mas vale a pena cumpri-las.
Em primeiro lugar, importa garantir a fiabilidade da informação a que se acede, o que impõe que se seleccionem devidamente as fontes, que podem ser os sites institucionais – da Direcção-Geral da Saúde, por exemplo – e os dos meios de comunicação social mais credíveis. Mesmo em relação a estes, interessa ter um ponto de vista crítico. Ao selecionarem e hierarquizarem a informação, como lhes compete, os jornais, as rádios e as televisões apresentam-nos fragmentos da realidade, não toda a realidade. Por isso, vale a pena indagar o que está a mais e o que está a menos.
Um exemplo: muitos foram os que não sendo católicos ou mesmo, nem sequer, religiosos se mostraram sensíveis às palavras do Papa Francisco ditas no inesquecível fim de tarde de 27 de Março: “‘Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?’ Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: ‘Acorda, Senhor!’”
Mas se, no dia seguinte, ou no a seguir, alguém procurasse nas páginas do jornal Público algum eco da extraordinária bênção Urbi et Orbi, uma pequena referência que fosse para memória futura, nada encontraria.
Fora dos media convencionais, o panorama não é reconfortante. Nas redes sociais e nas plataformas, os rumores e as falsidades abundam, assim como as teorias da conspiração. Um sério problema que daqui decorre encontra-se na circunstância de a difusão da verdade não conseguir contrariar a difusão da mentira. Diversos jornais incluem nos seus sites extensas listas de desmentidos de mentiras que andam a circular, mas muitos não as lêem e se as lerem não lhes dão crédito. A tarefa de verificar as falsidades, aliás, parece por vezes ser tão absorvente que se poderia julgar que a missão jornalística incide mais em fazer desmentidos do que relatos factuais. E, como se não bastasse, há ainda os burlões reais e virtuais que se aproveitam do medo generalizado para empreender diversas modalidades de extorsão (Fernando Viana alertava ontem, neste jornal, para a necessidade de nos precavermos quando descarregamos aplicações, uma vez que podemos estar apenas a convidar um criminoso para entrar no nosso smartphone ou tablet).
Uma segunda regra estabelece que se modere o consumo informativo. A quantidade torrencial de números, de factos e de prognósticos é avassaladora. O volume do que nos despejam ininterruptamente é-nos inútil. Nas televisões, a quantidade de directos à porta de lares da terceira idade satura e não é possível subsistir incólume a tantas visitas a tantos hospitais. Quem suportar a visão tornar-se-á facilmente indiferente ao que vê. A fartura de conselhos sobre o que fazer em casa neste tempo de confinamento também é tanta, que quem os quiser escutar arrisca-se a gastar o tempo todo a ouvir recomendações.
Ainda assim, há, como é óbvio, informação pertinente. Há notícias valiosas para sabermos o que passa na nossa terra, no país e no estrangeiro e para cuidarmos de nós e dos outros. Entre a informação que pode ser mais imediatamente útil, encontra-se, desde logo, a que está afixada à entrada de alguns prédios ou foi colocada nas caixas do correio com a indicação das lojas de rua e das farmácias que levam a casa o que necessitarmos e também do nome e número de telemóvel de alguém disponível para ajudar no que for preciso. É provável que estes vizinhos mais prestáveis nunca sejam referidos nos jornais para um modesto agradecimento, mas esta generosidade que ficará no anonimato encontra-se entre a que mais merece a gratidão de todos.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
Pouca e boa informação
DM
4 abril 2020