Sei de pessoas que se dizem saudosas das trotinetas partilhadas porque (tal como diz o Júlio Isidro na publicidade às próteses auditivas) já não conseguem viver sem elas. E que a sua retirada do espaço público da cidade de Braga, a partir de 1 de setembro, último, foi um forte revés para os apaixonados desse meio de locomoção. Um lamento de quem advoga o seu regresso ao meio citadino bracarense, quando Gaia e Espinho as enxotaram e o Porto prepara-se para fazer o mesmo.
Obviamente, que não terá sido de ânimo leve que o Presidente da Câmara Municipal de Braga (CMB) e a sua equipa tomaram a decisão de afastá-las da nossa urbe, mas só depois de terem feito o respetivo diagnóstico ao estado das coisas. Certamente que a “terapia” não agradou a todos, porém, falou mais alto a conclusão a que chegaram: a Cidade dos Arcebispos não tem condições para que as trotinetas operem. Sobretudo, por se tornar arriscado não só circularem pela faixa de rodagem, como pelos passeios. Já que as vias urbanas bracarenses não dispõem de capacidade estrutural capaz de albergar ao mesmo tempo autocarros, automóveis, bicicletas, segways, trotinetas e outros.
Com efeito, quem se vem queixando de que a atual ciclovia a retalho não serve como devia aos utilizadores de veículos de duas rodas – ou não vê maneira de existir alternativa ao traçado atual – recomendo a leitura de alguns artigos meus, no DM, publicados há alguns anos. Neles, alertava para o exíguo espaço público deixado pelas novas urbanizações com vista à criação de zonas verdes e à circulação das pessoas, nem estar a ser acautelada a necessidade de futuros traçados para adaptação a novos meios de mobilidade.
Assim não entenderam as chefias autárquicas dessa altura e o resultado está à vista: dificuldade em orientar o trânsito nas ruas e na expansão de tudo quanto dela necessite. Dou, a propósito, dois exemplos: o primeiro, é o atrofiado Centro Coordenador de Transportes de Braga, outrora com terrenos adjacentes vagos para a sua ampliação e hoje totalmente repletos de imóveis. O segundo, prende-se com o poiso para os feirantes, em que os Edis se têm visto às aranhas para conseguirem um espaço para a sua implementação definitiva.
Depois, se há quem diga que as trotinetas eram um inimigo a abater, eu cá não acho razoável dizê-lo. Porquanto sobre elas recaíam imensas queixas de cidadãos incomodados não só com os desmandos relativos ao seu uso, como à falta de civismo e fiscalização. Pelo que vem dando para constatar que, sem elas, Braga ficou mais segura para pedestres e cadeirantes. Já que caso fosse dada primazia nos espaços pedonais a todas as modas que rolam sobre rodas, o alvo a abater seriam os peões. Como se já não bastasse toda a tralha da restauração e não só, que vem devorando o caminho ao pobre caminhante.
Agora, que tanto se debate a mobilidade, não adianta aos aficionados das duas rodas (que também sou da bicicleta a pedal) chorar sobre o leite derramado. Porque seria preciso arrasar a cidade e pensá-la de novo para que tudo se conjugasse a contento das partes. Pelo que apenas me resta afirmar que prevaleceu o bom-senso de quem manda, ao ser reposta a normalidade para segurança e bem-estar de quem pretende andar a pé e em paz. Uma vez que, tal como disse o General Ramalho Eanes: – “abril ofereceu as liberdades, mas esqueceu-se de criar cidadãos”. Do mesmo modo, refiro eu, a CMB havia disponibilizado a trotinetada a trotineteiros incapazes de respeitarem as regras da liberdade e da sã convivência.
Posto isto, só me resta dizer chau e adeus às trotinetas partilhadas, elétricas ou ao pé-coxinho, esperando que não surja uma nova leva dos que resolverem adquiri-las à custa do seu próprio bolso. E fazer um brinde à chegada da onda obreira à capital do Minho, através da brigada do betuminoso para alcatroar os arruados e desatar o nó de Infias. Reerguendo a minha taça à retirada da Feira Semanal, finalmente, da Estrada Nacional Braga-Guimarães.