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Voltar às origens

O tempo parece caminhar mais veloz à medida que aumenta a distância das origens. Mas, é uma ilusão. As horas, os dias e os anos andam à mesma velocidade de sempre, nós é que o procuramos condicionar, no caso, a andar mais depressa, na esperança de rapidamente atingirmos os nossos objectivos. Acabamos por não apreciarmos a benção do tempo, não o saborearmos, na avidez de metas e objectivos que nos definimos ou que outros nos definem. O tempo caminha sem nos darmos conta e tantas vezes sem nos darmos pelas mudanças que vão acontecendo, algumas negativas, outras revolucionárias e até perigosas. Voltar ao princípio pode ser uma possibilidade, talvez pudesse trazer vantagens, reconsiderando princípios nefastos que se foram impondo ou alterações que pacificamente fomos aceitando. Nem sempre se faz uso da sabedoria nas decisões, preferindo-se a cegueira partidária, a primazia da evolução tecnológica, ainda que sem regras, a evasão aos problemas que não afectam cada um individualmente, embora possam afectar o todo colectivo, a abstenção comodista que deixa nas mãos dos demais o ónus das dificuldades. Egoisticamente, vamos deixando que as manipulações aconteçam, preferindo viver o presente a qualquer preço, indiferentes a escutar soluções que possam melhorar todos, a sociedade inteira, seja hoje, amanhã ou depois. Costumamos dizer que o futuro a Deus pertence, mas esquecemos de fazer a nossa parte. Somos livres, felizmente, mas isso não deixa de lado a responsabilidade, pelo contrário, deve incentivar-nos a promovê-la. Este esquecimento, ou simplesmente, desleixo, tem deixado que uns quantos nos obriguem a aceitar, sem que tenhamos consciência perfeita ou por pura desatenção, caminhos diferentes dos mais aconselháveis, ficando convencidos de que fizemos, sempre ou quase, as melhores escolhas. 


 

No Sábado passei algum tempo entretido nas redes sociais a ler comentários sobre as mais diversas coisas e situações. Fartei-me de rir com muito daquilo que por lá se diz, disparates e mais disparates, mentiras deliberadas para os mais fracos de inteligência consumirem, mas também fiquei perplexo e apreensivo com várias proposições que me parecem sensatas, sérias e despidas de oportunismo. No que à política diz respeito, considero que as disputas na oratória podiam ser mais ideológicas e estratégicas do que meramente tácticas, eleitoralistas e, pior, manipuladoras. No passado, nas origens em que me revejo, eram concerteza mais diferenciadoras, mais autênticas, havia sinceridade, coerência, honestidade intelectual, pensava-se mais no povo e respeitavam-se mais os eleitores. Na altura, o povo era quem ordenava, os escolhidos representavam-no, pelo menos, muito mais do que agora. Hoje elege-se os que querem e podem habilitar-se, mas estes não representam senão os directórios partidários ou o que lhes dá na real gana. Há-os divergentes em todas as forças partidárias, mas são casos pontuais, não a regra. Que impere uma democracia adulta, uma política sensata, honesta, responsável e consequente! Os caminhos dos nossos representantes devem coincidir com os do povo e nunca estarem desfazados dos que, como um todo, este percorre. Os primeiros não são reis omnipotentes, nem deuses, pelo que a única alternativa válida é caminharem com os subordinados, ajudando-os, quando for o caso, nas dificuldades e sobressaltos da vida. Procurem-se as origens enquanto é possível, enquanto se podem comemorar, depois será tarde! Em algumas geografias começa a ser tarde. Temo-lo visto aqui e acolá. 


 

A necessidade de voltar às origens também se manifesta nas tecnologias. Perguntei a um amigo engenheiro se concordava com o que se diz por aí sobre os perigos reais a curto/médio prazo da Inteligência Artificial (IA). Não teve dúvidas, nem papas na língua, embora aqui não caiba desenvolver. A IA precisa de ser regulada. Sempre direi que em tudo se deve colocar a sabedoria. Pena não poder recomeçar-se. Não será preciso uma nova revolução, tal qual como na política, mas há algo mais importante do que a IA: a Humanidade.

Luís Martins

Luís Martins

22 setembro 2026