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Um «restaurante» para o mundo?

Cristão é quem abdica de viver em si e para si. Cristão é quem decide viver em Cristo para todos.

Assim sendo, o cristão não faz parte do «clã do eu» (Maurice Blanchot). Pertence inteiramente – e incondicionalmente – ao Corpo de Cristo (cf. 1Cor 12).


 

Sucede que esta «cristovência» – incrementada a partir do Baptismo – é obscurecida pelo egocentrismo, pelo aferro opinativo, pela rigidez imisericordiosa, enfim pela sobreposição das posições pessoais aos Mandamentos de Deus.

No fundo, o pecado ocorre quando o ingresso em Cristo é abastardado pelo regresso ao «império do eu».


 

Daí que aquilo que São Francisco ouviu na ermida de São Damião mantenha plena validade para todos e para sempre: «Vai e “restaura” a Minha Igreja».

A bem dizer, a Igreja é um «restaurante» para o mundo. Nela, somos instados a «restaurar» o que em nós foi «instaurado» por Cristo, mas de que nos distanciamos com frequência.


 

Tal como no Restaurante se «restaura» a energia enfraquecida, também na Igreja se «restaura» a transparência de Cristo, tantas vezes ensombrada.

Em ambos os casos, é pelo alimento que a energia se repõe e que a transparência se recupera.


 

Na Igreja, o alimento que «restaura» a nossa identidade cristã é o Pão da Vida, o próprio Jesus Cristo.

Vem dos começos. Quem não come o Corpo de Cristo não recebe a vida de Cristo (cf. Jo 6, 53).


 

Impõe-se, pois, «restaurar» a vida cristã como vivência centrada na Eucaristia. Não de modo ocasional ou intermitente, mas de forma ininterrupta, imperativa.

É preciso, então, «restaurar» a conversão a Cristo pelo compromisso, na oração e na missão.


 

Neste sentido, é imperioso «restaurar» a prioridade do Evangelho. O testemunho evangelizador dos cristãos pode ser determinante para «restaurar» a paz no mundo e a harmonia na convivência.

Por conseguinte, nada de prepotência, nada de sobranceria, nada de palavras exaltadas. Urge «restaurar» a prática de a todos propor a verdade com humildade, na concórdia, na moderação.


 

Roguemos com o hinário litúrgico: «Moderai a nossa língua/A mentira não nos manche/Nem erros nem palavras/De ostentação e discórdia».

É tempo de refrear o discurso alterado e a tez furibunda. Chegou o momento de «restaurar» o olhar acolhedor que valorize a perspectiva diferente e até a posição dissonante.


 

A fé não se negoceia. Mas o amor também não se pode recusar. 

E, afinal, no meio do joio o trigo não deixa de crescer (cf. Mt 13, 24-46). 


 

É certo que, como filtrou o grande Chesterton, a Igreja pode parecer «intransigente nos princípios». Mas tal é «porque crê».

Acontece que ela é «tolerante na prática». Porquê? «Porque ama». E tem de amar sem distinção, incluindo os que possam não ter razão. Nem por isso deixam de ser nossos irmãos!

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

22 setembro 2026