1. O termo pós-verdade – como assinalámos em artigo anterior – é usado com muita frequência, mas também frequentemente sem um exame atento da sua significação. Aliás, surge associado com frequência ao movimento denominado de “pós-modernismo” – conceito ambíguo e polissémico –, que se insere numa rede de “pós” (sociedade pós-industrial, sociedade pós-histórica, era da pós-democracia, etc.), e que decorre da tomada de consciência de uma mudança de época, que, segundo alguns, coincide com o fim da Ilustração, que o pensamento de Nietzsche havia antecipado, no século XIX, mas cuja constelação filosófica se expandira nopós-modernismo do último quartel do século XX (Lyotard, Vattimo, Bataille, Foucault, Deleuze, Derrida, etc.).
Assim como Lyotard defendeu um pluralismo irredutível dos jogos de linguagem, defendendo o carácter local dos discursos, acordos e legitimações, também Deleuze acentuou a elevação do desejo a categoria central, como um dos índices do pós-modernismo; o próprio estilo de vida moderna está marcado pela fragmentação e pelo efémero, que caracterizam o quotidiano. Mas não será essa uma via para um individualismo extremado, um hedonismo narcisista, um solipsismo patológico, um comunitarismo radical?
2. Há cerca de 50 anos (Fevereiro de 1967), em Nova Iorque, a filósofa judia de origem alemã, Hannah Arendt (para fugir ao nazismo exilou-se nos Estados Unidos) publicou um texto sugestivo, intitulado Verdade e Política, e começa por constatar um “lugar comum”: "Nunca ninguém teve dúvidas que a verdade e a política estão em bastante más relações, e ninguém, tanto quanto saiba, incluiu a sinceridade entre as virtudes políticas. As mentiras foram sempre consideradas como instrumentos necessários e justificáveis, não apenas na profissão do político ou do demagogo, como também do estadista. Por que será assim?"
Para responder, Hannah começa por distinguir a verdade racional, que diz respeito às investigações filosóficas, matemáticas e científicas, da verdade factual, que se refere a acontecimentos, eventos e factos, susceptíveis de interpretações. O problema com a verdade racional é que ela concerne o homem na sua singularidade e supera o âmbito da política; já a verdade factual é a dos eventos que constituem o resultado das acções humanas, cujo terreno é o da política: o seu campo é o da pluralidade – ela realiza-se, não no homem isolado, mas entre os humanos.
Se o contrário das verdades racionais é a opinião, ou o erro, ou a ignorância, a mentira é aqui desconsiderada e entra no campo das verdades factuais; o que distingue a verdade factual é precisamente a mentira ser o seu pólo oposto. Os acontecimentos factuais são da esfera do político e, portanto, a liberdade de opinião deve assegurar a informação factual para que os factos não sejam postos em dúvida.
3. Todavia, Arendt divisa aí uma questão incómoda, que nos faz pensar: Será da própria essência da verdade ser impotente, e da própria essência do poder enganar? A resposta de Arendt é complexa, pois, se dum lado ela defende uma certa potência inerente à verdade para incomodar e questionar as tiranias, por outro, também admite um certo uso tirânico das verdades factuais, em nome das quais se instalam discursos e práticas totalitárias.
Mas o mais importante é que Arendt defende que a natureza da verdade é essencialmente política, ou seja, "é sempre relativa a várias pessoas: ela diz respeito a acontecimentos e circunstâncias em que muitos estiveram implicados; é estabelecida por testemunhas e repousa em testemunhos; existe apenas na medida em que se fala dela, mesmo que se passe em privado". Se a verdade é essencialmente política ela pode ser ameaçada pelas mentiras estratégicas dos poderosos, e precisa de ser continuamente defendida e conquistada com o máximo de questionamento e de debates públicos.
Hannah Arendt rompe com o relativismo dos que vêem os factos e a história apenas como interpretações. A possibilidade de interpretar não justifica a manipulação dos factos; quando assim acontece, ocorre a clara falsificação, caindo-se na mentira declarada, e coarcta-se o direito a interpretações diferentes; estas são formas de reorganizar os factos, mas elas não poderão dizer que o que ocorreu não ocorreu; se o fizerem, degeneram em falsificação histórica, na negação dos factos – como foi prática corrente dos totalitarismos, seja o nazista ou o estalinista. Como salienta Hannah, "a persuasão e a violência podem destruir a verdade, não substituí-la".
A mentira política, que era e é própria dos espaços diplomáticos, generalizou-se; a diferença é que o diplomata não perde a noção da verdade (mente em determinadas circunstâncias, sabendo que mentir faz parte do jogo). Já a mentira moderna confunde-se com a verdade e o mentiroso perde a noção dos limites: ele próprio parece acreditar na mentira que apregoa. Mas este ponto requer maior circunspecção (próximo artigo).
O autor não escreve segundo o denominado acordo ortográfico.
Autor: Acílio Estanqueiro Rocha