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Os políticos andam a brincar com a democracia

Sem dúvida e há demasiado tempo! É fácil de se verificar. Basta acompanhar o dia-a-dia e ver as “prendas” que os políticos nos dão. De mão beijada. “Prendas” únicas e revestidas de plaquês reluzentes e de múltiplos enfeites. Para descartar a coisa, pede-se, a custo, desculpa em nome do Estado. O Estado tem costas largas. No fim, aceitamos tudo. Com pouca ou nenhuma reação. O povo é sereno. E quando faz pequenos barafustes, é só fumaça, como dizia o almirante.

1 - Como não chegassem os comediantes, junta-se também à paródia o Supremo Magistrado (SM) da nação com uma tirada bem exibida e categórica: “é a democracia a funcionar”. E funciona nos trinques e com bons argumentos. Bem arquitectados. Soberbos. Provocadores. E não há contra-resposta plausível. A não ser muito silêncio. Um silêncio comunicacional que ecoa pelos corredores da venerável democracia nacional, pois todos os disparates, todos os arranjinhos se refugiam, portanto, no grande sofisma: “a democracia a funcionar”. Mesmo aos trambolhões, não importa. Mas, funciona. Quase sempre para o mesmo lado. Assim, o SM desarma de rompante quem discorda desta funcionalidade altamente funcional. E responsável. E transparente. Não há hipóteses de contestar. De ser contestada. Há que aceitar. A democracia a funcionar desta maneira é uma maravilha. Quando há borrasca, é “a democracia a funcionar”. E como há muita borrasca por aqui, está sempre a funcionar. Perante tanta funcionalidade, criticar para quê? – perguntam os mais atrevidos, já sem atrevimento. Os outros, nem sequer esbracejam. Já se habituaram à dose e se deixaram amarfanhar há muito tempo.

Um país sem massa crítica, pouco vale. Por interesses, vale muito, pois ainda tem muito para dar. Sempre aos mesmos, claro. Por isso, neste campo fértil, a inacção é ouro, baixar os braços é um tesouro. Eis a partitura naif: o alheamento. E os medos. Medo de opinar. Medo de participar. Medo da democracia. É verdade! Quem diria? Depois estranham. Onde se viu isto?!

2 - O caso dos votos dos emigrantes. É emblemático. Paradigmático. Desrespeitoso. Uma chapada nas ventas dessa gente que foi empurrada para fora do seu país. Para ganhar a vida, dando cabo do caniço. E de que maneira. Aqui, não se safam. Não há condições. Então, ver partir a “fornada qualificada” é um autêntico atentado ao desenvolvimento. E zarpam. Aos magotes. Doridos, claro. Zarpam, ao menos, para poderem sonhar um pouco. E para tentar dar um futuro melhor aos seus. Pensam, contudo, os CEO’s do país: que mandem, ao menos, muitas remessas que os políticos do burgo bem precisam delas para pronunciar aos quatro ventos: “palavra dada, palavra honrada” e os financeiros tratam bem delas e com boas aplicações. Como aconteceu com “os papéis” recheados do BES, do BANIF, do BPN e outros mais. Os tais lesados, uma turba de lesados incrédulos, ainda esperam pela sua justiça. E pelo dinheiro. E depois, como paga, recebem isto: não contam para nada. Nem nos votos. Só foram, segundo os números, 157 mil votos para a “pubela”. Sem apelo e com agravo de mandarem tudo às malvas. A comunicação social pouco diz. Pouco comenta. Pouco se insurge. Só uns “freelancer’s” mais destemidos. É uma questão de hábito. E de resignação. A partir daqui, só resta baixar a cabeça. É o que está em vigor! Quietos e caladinhos!

O Tribunal Constitucional, entretanto, encarregou-se de limpar a história esturrada nos bureau da Assembleia da República. Para repor a legalidade. A dignidade. O respeito por essa gente que labuta em terras estranhas. E para acabar com o arranjinho mal engendrado. Quem faz um arranjo destes, faz mil – assim diz o povo com toda a propriedade.

3 - Este é um sintoma claro da maleita democrática. Os líderes parlamentares borraram a escrita. Não ficaram bem na fotografia para revolta de quem se deslocou para votar. Para quem queria participar. Para quem se sente português. Mesmo na diáspora, dando cabo do caniço para esconder as “misérias” de um país que não consegue sufragar os seus melhores.

É triste! Bem triste, pensar que os políticos andam mesmo a brincar com a democracia!


Autor: Armindo Oliveira
DM

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27 fevereiro 2022