O Silêncio começa com uma citação. Atribuída a Albert Einstein, diz: “Não sei com que armas se irá travar a Terceira Guerra Mundial, mas sei que a Quarta Guerra Mundial se irá travar com paus e pedras”. Mahatma Gandhi também poderia não ser inapropriado: “Olho por olho e o mundo acabará cego”.
Um ecrã vazio apresenta-se como o efeito mais persistente de um próximo futuro que o escritor nova-iorquino Don DeLillo imagina no seu mais recente romance, editado pela Relógio d’Água em Novembro passado. O ecrã vazio é um sintoma da guerra próxima. “Ciberataques, intrusões digitais, agressões biológicas. Antraz, varíola, agentes patogénicos. Os mortos e os incapacitados. Fomes, epidemias e o que mais?” Os vocábulos da nova guerra, como diz o narrador, acumulam-se. A enunciação prossegue: “As redes energéticas entram em colapso. As nossas percepções individuais afundam-se na dominação quântica”. A somar, duas interrogações: “O nível dos oceanos estará a subir rapidamente? A atmosfera estará a aquecer, hora após hora, minuto após minuto?”
Perante o ecrã vazio, uma personagem feminina formula um conjunto de dúvidas: “O que está a acontecer? Quem nos está a fazer isto? Os nossos cérebros terão sido remasterizados digitalmente? Seremos uma experiência que, quis o acaso, está a correr muito mal, um esquema posto em marcha por forças fora do alcance da nossa compreensão?”
Uma personagem masculina pronuncia-se a seguir: “Fala de satélites em órbita capazes de ver tudo. A rua onde moramos, o edifício onde trabalhamos, as peúgas que trazemos calçadas. Uma chuva de asteróides. O céu repleto deles. Pode acontecer a qualquer momento. Asteróides que se convertem em meteoritos à medida que se aproximam de um planeta. Exoplanetas inteiros feitos em fanicos”. Atendendo ao que se está a passar, expõe uma inquietação: “Porque não nós. Porque não agora”. E, todavia, constata o homem, a concluir: “Seja lá o que for que se encontra à nossa volta, continuamos a ser pessoas, as lascas humanas de uma civilização”. “As lascas humanas”, enfatiza o narrador.
O ecrã vazio. Outra personagem, outro homem, noutro lugar, encostado à parede, examina o que o rodeia: “Noutros tempos, mais ou menos banais, há sempre pessoas de olhos cravados nos seus telemóveis, de manhã, ao meio-dia, à noite, em pleno passeio, alheias a todos os que se cruzam apressadamente com elas, absortas, hipnotizadas, devoradas pelo dispositivo, ou então caminhando direitas a ele para depois se desviarem no último instante, mas agora não o podem fazer, todos os viciados digitais, os telemóveis foram abaixo, tudo foi abaixo abaixo abaixo”.
A personagem feminina regressa com mais perguntas. Por exemplo: “Será que a nossa experiência normal foi apenas paralisada? Estaremos a testemunhar um desvio da natureza em si?”. Acrescenta que chegou o momento de se calar. “Quando digo isto, tentem compreender que não me censuro a mim própria, antes sublinho a minha importância. Escrevo, penso, aconselho, fito o espaço vazio. Será natural, num momento como este, reflectir e falar em termos filosóficos, como alguns de nós têm feito? Ou devemos mostrar-nos práticos? Comida, um tecto, amigos, puxar o autoclismo, se pudermos? Abracemos os gestos físicos mais simples. Tocar, apalpar, morder, mastigar”.
Perante o silêncio imposto pela falência das conexões digitais, em face dos ecrãs vazios, emergem as dúvidas sobre o que significa sermos pessoas, “lascas humanas de uma civilização”.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
Os ecrãs vazios de Don DeLillo
DM
31 janeiro 2021