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OS DIAS DA SEMANA Solidariedade com o povo ucraniano contra o clepto-imperialismo

Perante a guerra, os apelos à paz podem não ser suficientes. Mas não é por isso que se devem descartar. A Avaaz, uma das mais poderosas redes de campanhas cívicas globais, endereçou um aos governos de todo o mundo, tendo até às 18h04 de ontem sido subscrito por1.280.800 pessoas de todo o mundo: “Nós estamos ao lado dos povos da Ucrânia e da Rússia que não querem esta guerra. A invasão levada a cabo por Putin não é apenas um ataque à Ucrânia. É um ataque à liberdade, um ataque à democracia, um ataque à verdade. Pedimos-vos que protagonizem uma frente comum, responsabilizando o regime de Moscovo e os seus aliados, os seus porta-vozes e os seus apoiantes. Para isso, devem impor severas sanções contra a Rússia, fazendo tudo para acabar esta guerra. Diante do medo, escolham a coragem. Diante da divisão, escolham a união. E, diante da agressão, escolham a paz” [1]. A Avaaz declara que “o povo russo não apoia esta guerra. Ela é obra de um regime criminoso, atormentado pelo medo da democracia porque teme o julgamento da sua própria população”. Essa é a razão por que Putin “reprime violentamente os corajosos russos que saem às ruas para se manifestarem contra a guerra. É por isso que ele se encarniça a espalhar as suas mentiras por todo o mundo. E é por isso que ele não hesita em matar ucranianos, que derrubaram um regime pró-russo corrupto em 2014: ele não quer uma democracia florescente nas suas fronteiras. Não podemos aceitar isso. Chegou a hora de apoiar o povo ucraniano, de defender a verdade, a liberdade e o direito à autodeterminação dos povos de todo o mundo.” O impulso repressor não é, aliás, novo. “Os russos decidiram que discutir em liberdade era uma coisa inadmissível numa província sua e mandaram o seu exército ocupar no espaço de uma noite o país”, escrevia há quase quatro décadas Milan Kundera no romance A insustentável leveza do ser, a propósito da invasão da Checoslováquia em 1968 [2]. Anne Applebaum, historiadora e jornalista americana, autora de O crepúsculo da democracia (2020) e de Gulag – Uma História (2022), explicou que “Putin invadiu a Ucrânia porque a determinação dopaís em converter-senuma democracia é um claro desafio ao projecto nostálgico de política imperial que ele propõe, ou seja, a criação de uma cleptocracia autocrática, na qual ele exerce plenos poderes,algo semelhante ao velhoimpério soviético”. Respondendo a questões do diário espanhol El País, Anne Applebaum esclarece que “a Ucrânia mina este projecto pelasua mera existência como um estado independente e porlutar por algo melhor, pela liberdade e pela prosperidade”. A“revolução pela dignidade” que, em 2014, obrigou um presidente ucraniano corrupto a fugir do país “é exactamente o tipo de revolução que Putin teme”. Observa a historiadora que “ele sabe que, se a Ucrânia tivesse sucesso no seu impulso democrático enasua integração na UniãoEuropeia, os russos poderiam perguntar-se: epor que não também nós?” Do povo russo veio, aliás, o mais destemido apoio aos ucranianos. O director do diário francês Libération, Dov Alfon, escreveu, na sexta-feira, em editorial, que “o apoio inesperado, que se poderevelareficaz, veio contra todas as expectativas da própria Rússia: milhares de russos manifestaram-se contra a guerra na noite de quinta-feira. As imagens de prisões violentas em São Petersburgo, seguidas de não menos corajosas declarações de solidariedadepara como povo ucraniano, vindas de artistas,estudantes e mesmoestrelas de televisãorussas, sugeriam a possibilidade de um sobressalto europeu tão inesperado quanto ‘encorajador’”. Agora, defende Anne Applebaum, é o momento em que a Europa e os Estados Unidos da América devem repensar totalmentea estratégia em relação à Rússia. “Precisamos de tirar o dinheiro eainfluência russadosnossos sistemas políticos, sancionar todos os oligarcasque rodeiamPutin, confiscarassuas propriedades no Ocidente e impedir que voltem afazernegóciosnosnossos países”. Ou seja, é preciso travar “a lavagem de dinheiro russa no Ocidente e a influência política e financeira da Rússia nosnossos territórios”, uma interferência traduzida, por exemplo, como se sabe, na subsidiação de movimentos e partidos políticos de extrema-direita que hostilizam a democracia. A historiadora considera que não pode haver um retorno à “normalidade” comercial com a Rússia enquanto durar a ocupação da Ucrânia. A última sugestão é que a Europa fale a uma só voz e que se apresente mais unida e mais fortalecida. Uma voz pela paz. [1] https://secure.avaaz.org/campaign/po/stop_the_war_loc/ [2] Lisboa: D. Quixote, 1986
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
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27 fevereiro 2022