1. Sergei Zirnov, ex-KGB, do Instituto Andropov (Moscovo), em entrevista a Le Figaro, revela que Putin, quando aí examinado para prosseguir carreira, foi declarado “inapto”, porque incapaz de avaliar correctamente as decisões e as suas consequências; quer dizer, não tinha a noção dos riscos; por isso voltou para Leninegrado, depois para a então soviética RDA, como oficial de ligação numa cidade de província. Os “aptos” iam para o estrangeiro, como aconteceu a Zirnov, para França, a fim de se infiltrar na elitista ENA (‘École Nationale d'Administration’). Numa época em que a KGB empregava 420.000 oficiais, sempre havia lugar para um membro medíocre. Em 1999, verificou-se, de modo certeiro, o “Princípio de Peter”: se os especialistas da Inteligência soviética não se enganaram, o tenente-coronel Putin já então atingira o limiar de competências.
2. Em entrevista ao Público, Yuval Noah Harari, autor do ‘bestseller’ Sapiens – previa aí, sem razão, o fim do sofrimento, das pestes e doenças –, afirma agora, com razão: "Se Putin vencer, haverá uma era negra de guerra e sofrimento no mundo", pois o sonho do novo czar é reconstruir o império russo, recorrendo a mentiras, por ex., "que a Ucrânia não existe realmente, que os ucranianos são apenas russos que querem ser absorvidos pela Rússia". Ora, a Ucrânia é uma nação com mais de mil anos de história e Kiev já era uma grande capital quando Moscovo não era sequer cidade.
Por sua vez, no Le Monde, Youness Bousenna fez uma análise sobre “a visão do mundo” de Putin, com base num "texto raro escrito em Julho de 2021", intitulado “Sobre a unidade histórica dos Russos e dos Ucranianos”, em que, além do acima referido, Putin dá-se conta de "uma coincidência que lhe saltou aos olhos: "Em 988, foi a conversão do grão-príncipe de Kiev, Vladimir (955-1015) ao cristianismo bizantino, que selou o destino espiritual da Rússia; este baptismo fez dele hoje um santo. Onze séculos depois, Vladimir Putin conduz uma guerra motivada por uma quimera: restaurar este reino milenar. Mas, curiosamente, o destino terá querido que, diante dele, haja um outro Vladimir, que em ucraniano se diz Volodimir" – e este é Zelenski, que lidera “uma Ucrânia que existe realmente”.
3. Para Thierry Wolton, autor de ‘KGB no Poder’ e duma ‘História Mundial do Comunismo’, Putin está possuído por um espírito de vingança que nunca o abandonou, convencido que o sistema soviético ruiu vítima do capitalismo, e não por falência própria, o que é altamente perigoso num ditador violento e corrupto, cujo poder depende da força bruta que usa. "Não nos tornemos uma nação de amedrontados sem voz, que fingem não ver a guerra brutal desencadeada contra a Ucrânia por nosso pequeno czar completamente louco", foi o grito lançado pelo oponente do Kremlin, Alexei Navalny, que já sofreu envenenamento, salvo ‘in extremis’ (transportado de urgência para Berlim). O opositor Vladimir Kara-Murza, crítico da invasão russa, foi ontem (dia 11) detido por forças policiais, após denunciar o “apagão total” de informações na Rússia (não se diz que a Rússia ataca, mas que é atacada…). Também o Chefe da 5.ª Divisão dos ‘serviços secretos russos’ foi preso, e cerca de 150 funcionários impedidos de trabalhar nas instalações. Já se abrem brechas no consulado absoluto de Putin!
4. Acresce que a guerra da Ucrânia é um dos actos mais absurdos: o receio da NATO não explica a invasão brutal, com massacres de populações inteiras e a destruição quase total de cidades e aldeias; nem sequer a adesão estava na ordem do dia, nem havia armas da NATO na Ucrânia. Qual então o móbil de Putin? Para retornar ao Império Russo de antanho, precisava do território da Ucrânia (a “pequena Rússia”) e da Bielorrússia (a “Rússia branca”); nesta, já há um presidente fantoche, que só lá está por socorro da Rússia, que a invadiu, a pedido de Lukashenko, para evitar o seu afastamento após a revolta popular na sequência de eleições fraudulentas (2020); e, quando o quiser, Putin, dum só gesto, desaloja Lukashenko. À Ucrânia, Putin jamais perdoa a ‘Revolução pela Dignidade’ (2014), que expulsou o seu vassalo, Viktor Yanukovych; ele nunca aceitará que queiram viver num país soberano, democrático e livre. Ora, sem a Ucrânia, jamais a Rússia será império; e essa fronteira, por contágio salutar da democracia, poderá mostrar aos russos é hora de se livrem do novo Estaline.
Em artigo recente no New York Times, Maria Varenikova escrevia de Lviv que a brutalidade do exército russo é tal que tem o efeito oposto: "Se há uma emoção primordial que domina a Ucrânia agora, é o ódio”". Para Harari, acima citado, "o ódio é a mais feia das emoções", mas "para as nações oprimidas, o ódio é um tesouro escondido: enterrado no fundo do coração, pode alimentar a resistência durante gerações". Sendo, porém, uma resistência de gerações, aplicam-se melhor as reflexões (em 1961) da filósofa Hannah Arendt, quando escreveu páginas sobre “o tesouro escondido da resistência”.
Autor: Acílio Estanqueiro Rocha