Uma equipa de biblistas espanhóis tem estudado, há mais de 15 anos, as origens do cristianismo. Publicaram já 3 obras marcantes: ‘Así empezó el cristianismo´(2010); ‘ Así vivian los primeros cristianos’ (2017) e ‘De Jerusalém a Roma. La marginalidad del cristianismo de los orígenes’ (2021). Os 8 autores desta última obra assinam também a conclusão com sugestões para o cristianismo actual. A revista Vida Nueva, n.º 3.254, de 15-21 de Janeiro último, insere num caderno de 12 páginas tais conclusões, dada a importância e relevância que têm para o debate da caminhada sinodal em curso.
Começam por afirmar: «somos herdeiros de um cristianismo com um excesso de institucionalização e com carência de vida comunitária». Mais: «É urgente uma reforma radical das estruturas da Igreja Católica. Nos evangelhos, que são textos da segunda geração cristã, há uma crítica fortíssima às desigualdades e hierarquias que se iam introduzindo na Igreja, à medida que avançava o processo de institucionalização». Pensemos em afirmações como: «Vós não vos deixeis tratar por mestres, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. Na terra, a ninguém chameis ‘Pai’, porque um só é o vosso Pai: o do Céu. Nem vos deixeis chamar ‘Instrutores’, porque um só é o vosso Instrutor, Cristo. O maior entre vós seja o vosso servo». (Mt 23, 8-11)
É um dado indiscutível que: «na origem, existia um amplo pluralismo de comunidades que reivindicavam a memória de Jesus, com teologias e organizações muito diversas. «Rapidamente se estabeleceram entre estas comunidades relações, intercâmbios pessoais e escritos». A comunhão entre as igrejas pode ser mais laboriosa, mas é também mais rica. Foi preciso esperar pela segunda geração para que as diferentes tradições se reconciliassem e conseguissem um consenso. O mais claro foi o da aceitação do Novo Testamento como Escritura sagrada.
A comunhão eclesial exige que entremos na cultura do consenso, da sinodalidade, «o que não implica que se negue a existência de instâncias últimas de decisão»».
O cristianismo das origens não tinha templos nem sacerdotes, nem sacrifícios rituais. Reuniam-se preferencialmente nas casas. O templo era a comunidade dos crentes (1Cor 3, 16-17 e outras passagens). Eram comunidades muito participativas, que reconheciam a sua dependência de uma grande figura, próxima a Jesus (Pedro, Paulo, João, Tomé). «Não eram cultos a que se assistia passivamente, como podia ocorrer com os cultos oficiais e públicos da cidade. Nos grupos cristãos, havia uma grande participação, implicação e convicção pessoal, o que favorecia a criação de vínculos estreitos entre os seus membros e produzia uma transformação pessoal».
O cristianismo das origens tem um marcado carácter laical, no sentido de que todos os membros se sentem membros do povo (‘laós’) de Deus. E não existia um poder sagrado (no sentido etimológico de hierarquia, como ‘presidência sagrada’). O que havia era diversidade de ministérios ou serviços à comunidade e diversidade de carismas, entre eles o da presidência. Mais tarde aparecem os presbíteros e os bispos. É mesmo curioso e significativo que, para designar as funções eclesiais se evitem termos clericais do Antigo Testamento e se recorra a terminologia profana. A palavra sacerdote usa-se, no Novo Testamento, para os do templo de Jerusalém ou para os dos templos pagãos, e nunca como designação de ministério na comunidade cristã. A carta aos Hebreus afirma rotundamente que Jesus, com o sacrifício da sua vida, aboliu para sempre os sacrifícios rituais e o sacerdócio levítico entendido como ponte sacral com a divindade. Agora, toda a comunidade é sacerdotal (1Pe 2, 9) e os sacrifícios aceites a Deus não têm um carácter ritual, mas existencial (Rom 12, 1; 1 Pe 2, 5).
«O clericalismo, entendido como a existência de um corpo clerical, separado e cooptado, com poderes sagrados que, na prática, monopoliza todas as funções, e que se coloca por cima da comunidade como uma hierarquia superior que, de facto, favorece a passividade, atenta contra a característica originária do cristianismo». Nesta perspectiva, em que o sacerdote tem a ‘sua’ ou ‘suas paróquias e o bispo tem a «sua» diocese, o recurso aos leigos é sempre de forma subsidiária, na medida em que faltar clero. «O clérigo manda, sabe e tem em exclusiva os poderes sagrados. Chega-se ao cúmulo de o sacerdote poder celebrar a Eucaristia sem comunidade, mas a comunidade não pode celebrar a eucaristia sem o sacerdote. «Isto é incompreensível à luz do estudo do cristianismo das origens». Continua.
Autor: Carlos Nuno Vaz
O Cristianismo actual à luz do estudo crítico das suas origens (1)
DM
5 fevereiro 2022