A última semana foi farta em acontecimentos que pela sua importância podem condicionar o amanhã de todos nós.
As polémicas à volta do partido Chega sobre o direito de apresentar candidatos à mesa da Assembleia da República, a anulação de cerca de oitenta por cento dos votos dos portugueses residentes no estrangeiro, a prisão do estudante que se prepararia para efetuar um massacre na sua própria faculdade e as permanentes notícias sobre a eventualidade da invasão da Ucrânia pela Rússia são factos que não podem deixar ninguém indiferente.
Quanto à controvérsia relativa ao partido de André Ventura, creio que tudo o que for feito para o isolar só levará à sua vitimização e fornecer-lhe-á o palco de que mais gosta para continuar a combater o que ele considera o sistema. Deixar funcionar as instituições, será o melhor caminho. Permitir-lhe apresentar candidatos e sujeitá-los ao escrutínio secreto dos deputados, será a solução mais viável.
A democracia não é o regime exclusivo de democratas. Nela também têm lugar os inimigos da democracia que devem ser combatidos pelo debate de ideias, pelas eleições livres, pela justiça e nunca pelas vias de qualquer exclusão. Só assim será possível defender com eficácia o regime democrático em que vivemos. Regime democrático que deve estar sempre aberto a correções e melhorias e nunca se fechar em si mesmo, quando se tornam evidentes essas necessidades.
Entre nós, o que se passou com os votos dos emigrantes é não só vergonhoso, como também desrespeitoso e desmobilizador para os nossos concidadãos a viver além-fronteiras. É urgente corrigir a lei eleitoral e ao fazê-lo introduzir um círculo nacional que dê mais verdade ao escrutínio e faça corresponder a mandatos os votos contados em todo o território.
No que à detenção do estudante da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa diz respeito, indiciado por preparação de crime de terrorismo, há que louvar a ação da Polícia Judiciária, mas, ao mesmo tempo, censurar a excessiva mediatização do caso.
Trata-se de um jovem de 18 anos, pelo que se sabe sem antecedentes criminais, bom aluno, com família aparentemente normal e, possivelmente, com patologia psiquiátrica. O assunto é de grande gravidade. Contudo, a exagerada exposição poderá vir a incentivar novos casos e, certamente, constitui para a família do estudante um castigo desmedido e difícil de suportar.
Se estes foram os assuntos que dominaram a realidade nacional e encheram as redações dos diversos órgãos da comunicação social, a possível invasão da Ucrânia pelas tropas russas é o assunto internacional predominante.
Na realidade, após uma longa pandemia de consequências ainda mal calculadas, uma guerra na Europa é o que o mundo menos precisa.
Supostamente, o que estará em jogo é a garantia que a Rússia exige daquele antigo país da União Soviética de não vir a integrar os países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Aparentemente, face ao direito internacional, trata-se de um absurdo visto a Ucrânia ser um país independente e senhora de escolher o seu destino e os seus aliados. Seja por esta razão ou apenas por Vladimir Putin querer restaurar as pretensões imperialistas da Rússia ou, como afirmam outros comentadores, desviar as atenções dos problemas internos do seu enorme país, espera-se que a paz prevaleça.
Espera-se que o diálogo e a diplomacia das várias potências deem os frutos desejados e que o cenário de guerra desapareça rapidamente.
Como o Papa Francisco referiu na Praça de S. Pedro no domingo passado, “As notícias que chegam da Ucrânia são preocupantes. Confio à intercessão da Virgem Maria e à consciência dos responsáveis políticos todos os esforços pela paz”. Na verdade, a situação daquele grande país do sudeste da Europa é um verdadeiro pesadelo que a todos perturba e inquieta.
Acreditemos na boa-vontade dos poderosos do mundo e tenhamos esperança em dias mais serenos e tranquilos.
Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira