As compras lá de casa são feitas, habitualmente, no comércio tradicional da nossa cidade de Braga, em lojas com as quais nos fomos familiarizando ao longo dos anos, bem como com as pessoas que lá trabalham. No entanto, quando algo faça falta numa altura em que elas estão fechadas, recorremos a um dos supermercados da zona. E assim foi, num dia de feriado em que, uma vez lá, resolvi dar uma espreitadela às prateleiras e ver as novidades expostas. Foi quando me deparei com um setor de produtos exclusivamente para animais: uma verdadeira parafernália de rações embaladas, das mais variadas composições e sabores, adequadas à bicharada.
Gourmet, ou não, de carne e peixe, os alimentos para animais vão desde os secos aos húmidos: truta, salmão, bacalhau, gambas, vaca, cordeiro, coelho, frango, etc. Cujo preço de cada embalagem daria, certamente, para comprar meia dúzia de pães, ou mais, para alimentar um ser humano com fome. Mas não é só. As prateleiras exibiam uma série de utensílios, dos mais improváveis, para darem conforto e bem-estar a cães, gatos, canários, periquitos e, até, aos peixes, pois bem o merecem.
Ora, assim sendo, gostaria de ver a nova ‘pancada’ ideológica – fundamentalista – vir explicar o porquê de animais comerem outros e de porem em questão o abate de várias das suas espécies para a alimentação humana e, ao que se vê, dos próprios bichos. E a debitar-nos as consequências que, daí, adviriam se a indústria e toda uma economia que gira à volta de produtos alimentares, processados de carnes, acabasse. Ou, ainda, como sobreviveriam os que vivem do salário que essas empresas lhes pagam, assim como o próprio estado que cobra 23% de IVA dessas transações.
Com tal radicalismo, desses supostos amantes dos animais, pergunto: – se ninguém caçasse, nem houvesse abate de bovinos, suínos, coelhos, frangos, etc. ou não fosse ao mar capturar pescado, (como no tempo de Jesus), o que seria dos humanos e dos animais de companhia? E se fosse seguido à risca tudo aquilo que esta nova vaga de políticos propõe – servindo-se da bicharada para se instalarem no Parlamento – do que viveriam as pessoas e os outros seres? O que seria dos restaurantes e similares espalhados pelo mundo? Para quê formar tantos chefes de cozinha e de que serviria o imenso receituário de culinária publicado? E quem de entre essa gentinha seguidora da ditadura ‘Vegan’, porventura, não apreciará umas boas papas de sarrabulho? Um tenro cabritinho assado? Uma peça estaladiça de leitão? Uma suculenta caldeirada de peixe? Uma generosa posta de bacalhau, etc.?
Só ‘betinhos’ urbanos são capazes de tal “agenda” radical que se propõe tratar da vida das pessoas, dos animais e da natureza. Coisa que, há dezenas de anos, é tratada no escutismo e nos livros de educação cívica de outrora. Só que ignoram que os humanos são seres muito complexos e que os desequilíbrios no planeta – provocados por estes – dificilmente se normalizarão, tantos são os conflitos de interesses que lhes subjazem. É que a coisa poderá vir a ser muito pior quando, em 2050, as bocas para alimentar rondarem os nove mil milhões no mundo.
Imagine o caro leitor do que os paladinos destas novas teorias da supremacia animal se lembraram: de propor um ‘Serviço Nacional de Saúde Animal’. Como se os portugueses já tivessem um, capaz de lhes dar resposta às maleitas na devida hora e meios de socorro rápidos, prontos a agir no devido tempo. Pois não é o que se tem visto, dado ainda morrer gente por falta de celeridade nos serviços prestado pelo nosso SNS.
E como se não bastasse – numa altura em que ainda há lares indignos onde permanecem muitos dos nossos idosos – em vez de canis, gatis, gaiolas, galinheiros, etc., querem criar resorts e hotéis, que já os há, para os animaizinhos. Isto, quando há, ainda, no país crianças carentes e adultos a dormirem nas ruas, famintos e com frio, por não terem onde viver e morrer com alguma dignidade.
Autor: Narciso Mendes
“Gourmet”, secos e húmidos
DM
14 fevereiro 2022