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Flores e aves de Alberto Peixoto

Where have all the flowers gone?”, perguntou em 1961 Pete Seeger na famosa canção pacifista que Marlene Dietrich e Joan Baez ajudaram a celebrizar. “Por que deixaram de pintar flores?”, questionou em 2012 o pintor Alberto Peixoto no título de um ciclo de obras exposto no Museu Nogueira da Silva. A interrogação, que também não deixava de ser política, era usada para salvar do anacronismo pictórico as flores, que, como os pássaros, foram um dos grandes temas do pintor, ainda que a sua obra profícua se tenha feito também, por exemplo, de remissões para os universos de autores estimados, como Franz Kafka ou Fernando Pessoa. Alberto Peixoto foi um querido amigo e um grande artista plástico, e músico, que nos deixou há poucos dias. Homenageio-o, recuperando parcialmente um texto que escrevi para o catálogo de uma exposição sua.

1. as mãos. o instrumento

[…]

Tomar em consideração esse “instrumento puro” que são as mãos, manifesta-se da maior relevância para uma aproximação à obra plástica de Alberto Peixoto. Elas são, com efeito, o lugar onde as artes plásticas e a música se encontram.

Parece muito evidente (é todavia possível dizer que estas evidências se manifestam a posteriori) que, em Alberto Peixoto, o gesto de desenhar e pintar é afectado pelo gesto musical do pianista. Ao serviço de gestos precisos, delicados e cultos, estas mãos funcionam, assim, como vasos comunicantes emprestados a uma enorme minúcia e a uma excessiva subtileza.

Operando de forma sistemática, através do aprofundamento até à exaustão de séries de possibilidades, as mãos executam com rapidez obras de lenta maturação.

2. os pássaros. o tema

[…]

Há pássaros excepcionais a sobrevoar as artes plásticas, o cinema, a literatura e a música do século XX. Recordemos apenas, por exemplo, os pássaros de Georges Braque, de Alfred Hitchcock, de Saint-John Perse, de Olivier Messiaen. Eles são, também, um tema forte (talvez mesmo o principal) na obra de Alberto Peixoto.

Para esta presença, concorrem motivos diversos. Giacomo Leopardi enaltece os pássaros porque são as criaturas mais alegres do mundo [1]. Pela sua natureza, são mais dados “ao prazer e à felicidade” que os outros animais. Eles “parecem ignorar o aborrecimento; mudam de lugar a todo o instante, passando de um país a outro, indiferentes à distância”. Os pássaros acumulam “uma infinidade de impressões diferentes”. O poeta encontra ainda motivos para elogiar estes animais na circunstância de eles possuírem um ouvido apurado e um olhar perscrutador e perfeito. “É nos pássaros que a imaginação atinge o mais alto grau de vivacidade e de força”, diz Giacomo Leopardi.

Para tornar simpáticas estas criaturas, bastariam – como se, aliás, fossem poucas – estas características. Os pássaros são também poderosas metáforas.

O crítico de arte e antigo director do Museu do Prado, Francisco Calvo Serraller, considera que “há que reconhecer que poetas e pintores se identificaram mais do que ninguém com o destino dos pássaros” [2]. Saint-John Perse é citado por Calvo Serraller para mostrar a cumplicidade entre pintor e pássaro (“conjura do pintor e o pássaro”): “Alto voam na grande noite do homem. Porém, ao amanhecer, estrangeiros, descem até nós: vestidos da cor da aurora, a cor do fundo do homem... E desse amanhecer suave, como de uma ondulação puríssima, guardam entre nós algo do sonho da criação”.

Nos trabalhos de Alberto Peixoto sobre pássaros, pode notar-se uma espécie de operação mimética que aproxima o gesto do voo. O movimento da mão pode ser descrito praticamente com recurso a expressões como as que Giacomo Leopardi e outros autores usam para descrever o movimento dos pássaros.

Guardada agora para o fim fica uma canção de Laurie Anderson. Intitula-se “Excellent birds” e começa assim: “Flying birds. Excellent birds / Watch them fly. There they go / Falling snow. Excellent snow / Here it comes. Watch it fall / Long words. Excellent words / I can hear them now / This is the picture.” [3]

Flores e aves, pois, indo dos quadros de Alberto Peixoto para o coração e a memória de cada um.

[1] Éloge des oiseaux. Paris: Mille et une nuits, 1995

[2] Columnario, Reflexiones de un crítico de arte. Barcelona: Galaxia Gutenberg, 1999

[3] Mister Heartbreak. Nova Iorque: Warner Bros. Records, 1984
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
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24 janeiro 2021